Velhas Fotos


Às vezes revejo velhas fotografias em busca não sei de quê. (Mais abaixo, tento explicar.) Me detenho especialmente nas fotos de velhos amores. E, antes de seguir adiante, digo o seguinte: tire fotos, muitas fotos com sua namorada (ou seu namorado). Tenho uma razão muito forte para dizer isso. Não sei por que, jamais tirei uma foto com Cláudia. E lamento. Cláudia, bem, Cláudia provocou um terremoto em mim. Tão fina, eu tão, tão, sei lá, tão desleixado. Eu subia o elevador rumo ao sétimo andar, para o quarto de moça de Cláudia, com sofreguidão. Sétimo andar. Sempre que vou procurar as velhas fotos, a ausência da imagem jovem e alegre e bonita e fina de Cláudia me incomoda. Me divertia ao fazer Claúdia dizer coisas tão impróprias para uma mulher com sua classe. Queria testar seus limites, e pude verificar que eram mais elásticos do que eu imaginava.

O registro fotográfico de uma paixão é essencial. Até porque esse registro é uma das poucas coisas que ficam. (Não, não me chame de melancólico, derrotista. Sou apenas sincero.) A paixão se eterniza naquele momento e naquela foto. Não importa o que venha depois. A foto da paixão é como que um formidável desafio ao tempo e aos estragos do tempo. Tudo passa, mas a foto resiste. (Manuel Bandeira certa vez usou a seguinte expressão a respeito de não lembro bem o quê: o tempo não terá efeito. O tempo não terá efeito. Acho essa expressão assombrosamente linda.)

As ocasiões em que mexo nas velhas fotos são raras e são especiais. Quando as revejo, é como se eu estivesse sentindo frio e precisasse de algum calor. E precisasse também da sensação de que minha vida teve, e tem, sentido. De que nem tudo foi desperdiçado, foi perdido. Aquelas fotos me contam que durante algum tempo fiz felizes algumas mulheres e que elas também me fizeram feliz. A certeza da troca (ainda que temporária) de felicidade me aquece.

E então olho para meus amores pretéritos. Vejo Lenira no esplendor dos seus 16 anos. Está calor e ela veste um vestido leve azul sobre sua pele morena. Se não me engano, é o vestido que ela usava quando lhe dei o primeiro beijo. Mas posso estar enganado. Ali nas costas da foto estão palavras escritas em sua letra não muito bonita e em seu português pouco exuberante. Eu tinha 19 anos e estava prestes a passar uma temporada na Europa. “Toda a sorte nessa viagem e nessa vida, Fabio.”

Os olhos verdes de Lenira parecem desmentir o sorriso que ela endereçou a mim na foto. Vejo hoje que seus olhos diziam que nossa festa acabara. Que seguiríamos vida afora cada um de seu lado. E foi realmente o que aconteceu. E talvez não tenha sido ruim para nenhum dos dois. Sempre me senti muito inferior a Lenira. Tive que me afastar dela para perceber que eu não era tão pequeno quanto me sentia a seu lado. Romance nenhum pode funcionar quando você se sente menor que a outra parte. E eu me sentia incrivelmente menor que Lenira. Ela não teve a menor culpa nisso. Ela sempre me prestigiou. Elogiava até meu cabelo punk da época, simplesmente horroroso.

Lenira não pareceu entender quando eu, num comportamento psicótico e destrutivo, a empurrei para longe de mim. Para falar a verdade, nem eu. Antes de embarcar para a Europa, dei uma festa de bota fora em casa. Levei Lenira e a melhor amiga dela, linda aliás, para suas casas. Deixei primeiro, de propósito, Lenira. Queria que ela se atormentasse com a idéia de que eu poderia sair depois com sua melhor amiga. Passaram-se muitos anos para que eu compreendesse que a jogara para longe porque me sentia tão diminuído diante dela. O problema não era ela. O problema era eu. Por Lenira chorei pela primeira vez as lágrimas cruéis do amor. Era um choro tão sentido, tão sincero que levei minha mãe a chorar comigo. LOL. Sofri muito, depois, por outras mulheres. Cheguei a me desesperar em algumas ocasiões. Numa delas, quase enlouqueci. Fiquei tão fora de mim que tomava calmante para me acalmar e, em seguida, antidepressivo para me animar. E alguns goles de steinhegger, admito.

Mas nunca mais chorei.

E então vejo velhas fotos da Nadja. São de nosso último período. Já não havia nem o sorriso, como em Lenira, para desmentir o que os olhos diziam. Perdêramos o jogo. Procuro uma dedicatória e não encontro. É pena que com o tempo deixemos de fazer coisas tão ingênuas mas tão marcantes como as dedicatórias nas costas de uma foto apaixonada.

E então tento encontrar fotos de Nadja de nossa primeira fase. Não encontro. Lembro aí que as rasguei num momento de fúria e lamento a impossibilidade de capturar numa velha foto que rasguei a magia eletrizante de um momento único e que jamais se repetirá. E então digo a você: por maior que seja a vontade, não rasgue aquelas fotos, não rasgue aquelas fotos, não rasgue aquelas fotos.

13 Respostas to “Velhas Fotos”

  1. Ricardo Steil Says:

    Oi Fábio. Há muito tempo li este texto na revista Vip – Luana Piovani estava na capa, e eu olhando o teto do hospital -, e graças a ele, evitei de rasgar umas fotos. Foi ótimo relê-lo, e ver o quão atual ainda continua. Parabéns,.

  2. Anónimo Says:

    Eu rasgo! Todas. Sem exceção.
    Aliás, eu prefiro queimar e depois dar descarga. Ô sensação boa! Melhor que revê-las anos depois…

  3. Anónimo Says:

    Fabio:

    Você ainda vai chorar! É sinal de que amou!

  4. Anónimo Says:

    você ainda escreve? você escreve coisas novas? ou apenas repagina as antigas? às vezes gosto do que leio aqui, outras nem tanto, mas fico semrpe com a sensação de que você apenas muda detalhes de uma história, lembrança, reflexão, antiga

  5. Anónimo Says:

    Os homens são todos iguais.É assim que as mulheres dizem há tempos. E elas estão certas. Tive mulheres parecedíssimas com as suas e até
    algumas fotos sem nenhuma dedicatória. Somos
    eternamente iguais. Estou com você, um conselho
    para os outros: não rasgue nenhuma foto, por pior
    que seja a história, pois, agora se transformaram
    em apenas lembranças sem nenhum nó na garganta.

  6. Anónimo Says:

    Os homens são todos iguais.É assim que as mulheres dizem há tempos. E elas estão certas. Tive mulheres parecedíssimas com as suas e até
    algumas fotos sem nenhuma dedicatória. Somos
    eternamente iguais. Estou com você, um conselho
    para os outros: não rasgue nenhuma foto, por pior
    que seja a história, pois, agora se transformaram
    em apenas lembranças sem nenhum nó na garganta.

  7. Anónimo Says:

    Sim, as fotos são mesmo a melhor forma de lembrar um amor perdido. Quando há um rompimento relacional, o melhor a fazer é partilhar as fotos com sua ex-parceira; caso contrário, o passado ficará apenas com ela e você será atormentado pelo resto da vida com reminiscências apenas mentais. Vale assistir o atual filme de Hector Babenco, “O Passado”, com Gael García Bernal. Tudo a ver.
    Abraços…
    Robson Marques

  8. guigo Says:

    Caro Fabio…..não acredito em fotos…..elas costumam nos enganar…..mas a vida tb é um grande engano.
    com relaçao as pessoas que te criticam….faça com aquela propaganda de wisky…Kepp Walking

  9. guigo Says:

    Caro Fabio…..não acredito em fotos…..elas costumam nos enganar…..mas a vida tb é um grande engano.
    com relaçao as pessoas que te criticam….faça com aquela propaganda de wisky…Kepp Walking

  10. Nicky-san Says:

    Consumatum est.

    Rasguei as fotos, as cartas, os poemas, os bilhetes…
    Lembranças ruins não fazem falta.

  11. Vanessa Says:

    Eu amo esse texto!

  12. Cecília Gouveia Says:

    Perfeito, perfeito, perfeeito!!! Me arrepiei com o que li agora, nossa!

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