O Caminho


Não há, na vida de um homem, mais que dois ou três caminhos mágicos. São aqueles que levam a lugares e pessoas especiais, e que se colam como um doce e caloroso adesivo à nossa memória até o fim dos dias. Conhecemos cada pedaço daquele caminho como se fosse um pedaço de nós mesmos e de alguém ou alguma coisa que amamos. Uma árvore da qual jorra uma sombra generosa em dias tórridos. A fachada de uma casa que nos impressiona pela melancolia conquistada ou pelo esplendor perdido. A subida que nos faz arfar. O cruzamento diante do qual é prudente parar olhar para os dois lados cuidadosamente. A pintura rude na rua, em geral com um tijolo, na qual as crianças fixam um campinho de futebol que para elas tem a dimensão de um estádio profissional. O velho melancólico que costuma flanar por ali como que em busca de algo que ficou para trás. O vira-lata branco que gosta de rosnar e assustar os passantes.

Cada trecho está gravado em nós, e é curioso como às vezes podemos lembrá-los em detalhes tanto tempo depois de termos mudado de rota. Uma época que morreu renasce pelos passos imaginários de um caminho que um dia foi de verdade.

A lembranças algumas vezes nos enternecem. Outras vezes nos arrasam. E há também ocasiões em que elas nos despertam um sorriso interior há muito esquecido. De certa forma, elas cumprem o papel de nos lembrar que não desperdiçamos por inteiro a vida. Elas podem também nos fazer recuperar algo que nem sabemos que um dia tivemos.

Um escritor barato a quem o correr dos longos dias fez cínico e descrente, por exemplo. Ele pode lembrar que um dia acreditou nas coisas ao trazer à memória o caminho por onde seu pai, num fusca vermelho, o levava ao clube pelo qual, menino, jogava futebol. Enquanto o carro se movia, ele ao lado do pai sonhava sonhos que se desfariam. Mas que importância a realização ou não de um sonho tem para um menino capaz de arregalar os olhos e ver coisas tão lindas pela frente? O escritor barato talvez tenha esquecido que um dia acreditou, e a simples recordação de quem nem sempre foi descrente pode aquecê-lo por dentro e lhe devolver alento e uma dose de fé ingênua que quem sabe o ajude a atravessar os invernos da nossa desesperança. Invernos da nossa desesperança. É uma frase de Steinbeck, John Steinbeck, romancista americano.

Acho que já escrevi, mas não faz mal: um mestre zen diz que cada um de nós devia ter por perto uma foto nossa de meninos. E olhar para ela para aprendermos com o garoto que fomos coisas que possam melhorar, suavizar, humanizar o adulto que somos. E então me ocorre o pensamento tolo de que gostaria de transformar numa fotografia o caminho levava à casa da menina de olhos verdes e pendurá-la, enorme, gloriosa, no céu. A foto comportaria todos os passos que iam dar naquela casa de portão verde de madeira descascada, aquele mesmo portão que um dia o menino apaixonado transpôs para ganhar a rua e não mais voltar, aquele mesmo portão que, aberto, representou a entrada na terra encantada do primeiro amor e ao se fechar assinalou a chegada do homem de olhos tristes que se transformaria num escritor de folhas na relva, letras para serem pisadas, eventualmente observadas e jogadas fora.

5 Respostas to “O Caminho”

  1. Marina Says:

    Sensacional!!!
    Um dos melhores textos seus que já li, Fábio.
    O mais engraçado é que veio de encontro ao meu momento do hj.
    Parabens. Simplesmente inspirador e emocionante.

  2. Mah Says:

    A melancolia sempre intensifica a importância do passado… e dá um medo, de gelar a alma, de nunca mais sentir o deleite da descoberta… como a primeira vez que beijei, meu primeiro porre, primeira vez que chorei por amor…
    Mas devo dizer que o “presente” apesar de raro, me surpreende deliciosamente… como a primeira vez em que leio Fabio Hernandez, um escritor incrivelmente “barato”!
    Nice to meet u, stranger! (Lol)

  3. Mah Says:

    A melancolia sempre intensifica a importância do passado… e dá um medo, de gelar a alma, de nunca mais sentir o deleite da descoberta… como a primeira vez que beijei, meu primeiro porre, primeira vez que chorei por amor…
    Mas devo dizer que o “presente” apesar de raro, me surpreende deliciosamente… como a primeira vez em que leio Fabio Hernandez, um escritor incrivelmente “barato”!
    Nice to meet u, stranger! (Lol)

  4. Anónimo Says:

    Olá Fabio tudi bem.
    Desde que assinei a VIP a uns seis anos atras, adoro ler seus textos.

    Esse é seu? Tem alguns blogs com o mesmo texto e nenhum com referencia da sua autoria.
    Desculpe e abraços.

  5. Cecília Gouveia Says:

    Fábio, mais uma vez surpreendente!

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