Era uma vez em Salvador – parte 2


 

Gabriela conhecera Eduardo no campeonato mundial de vôlei de praia, que ambos cobriam para seus jornais. Estavam os dois entre os jornalistas que entrevistavam Jaq, a estrela do campeonato. Eduardo perdera sua bic. Pediu uma caneta emprestada à primeira jornalista que viu ali naquele grupo. Era Gabriela. Assim que viu Eduardo, ela como que voltou no tempo. Ele lhe lembrava sua primeira paixão, Pedro: pele escura, cabelos pretos e lisos em enorme quantidade, olhos pretos que pareciam tristonhos, um jeito quase infantil de sorrir. Com Pedro ela desenvolveu a fantasia da dominação. O homem pode tudo. A mulher pode apenas se esforçar para satisfazer as vontades dele. Chamava-o na cama de “senhor”, “mestre”. Muitas vezes ele testou-a. Queria ver até onde ia a fantasia. Gabriela jamais recuou. Pedro definiu Gabriela sexualmente. Fez dela uma mulher libertária, sem preconceitos, disposta a tudo na busca libidinosa do prazer.

Eduardo apanhou a caneta que Gabriela lhe estendeu no torneio de vôlei e riu na mesma hora. Era uma caneta azul-clara em cuja parte de cima estava sentado um roqueiro com uma guitarra vermelha. Mais tarde ela lhe contaria que ganhara a caneta de um colecionador de canetas baratas e extravagantes, Daggy Boy. Eduardo reparou que ela o olhava com fixidez. Convite? Talvez. De qualquer forma, ele gostou do que viu: pele clara de quem usa protetor acima de 20 para evitar rugas, cabelos longos e claros, vestido negro colado. Estavam ambos nas acomodações destinadas à imprensa na arquibancada montada na praia. Era o terceiro e decisivo set.

“Sabe o que eu acho?”, disse ele do lado dela.

Ela virou o rosto.

“Acho vôlei de praia o esporte mais chato do mundo. É pior que o vôlei normal. Se é possível.”

“Sabe o que eu acho?”, disse ela. “Que você tem razão. Vôlei de praia só não é mais chato que vôlei normal porque nada é mais chato que vôlei normal. Qualquer dia vou sugerir ao nosso colunista de vôlei que escreva uma coluna com a seguinte sugestão: o jogo já começa 2 sets a 2. E só se joga então o set decisivo.”

“Seria o cúmulo do antiprofissionalismo eu convidar você para dar o fora daqui em pleno jogo. E no set decisivo de uma partida que vai definir as duplas finalistas. A Folha investiu dinheiro para você estar aqui. Meu chefe também confia na minha boa cobertura. Seria simplesmente absurdo convidar você para ir até uma daquelas praias da Linha Verde em que a civilização ainda não colocou as garras. Um absurdo.”

Ela sorriu para ele. “Realmente. Um horror. Antiprofissional. Antiético até. Me sentiria uma larápia agindo assim.”

E puxou-o pelo braço para longe dali no seu passo rápido, que ele tinha alguma dificuldade em acompanhar.

“Por que as mulheres paulistanas andam tão rápido?”, perguntou ele enquanto se esforçava para ficar do seu lado.

“Sei lá. No meu caso, é para chegar mais depressa ao topo.”

Havia desde o princípio, entre eles, um sentimento de urgência. Aquilo tinha hora para terminar. Os romances acabam sem data definida. Acabam simplesmente quando têm que acabar. Mas o deles tinha dia e hora para chegar ao fim. E tinha até um cenário: o Aeroporto 2 de Julho. A urgência os fez parar o carro de Eduardo antes de chegarem perto da primeira praia da Linha Verde para fazer sexo.

“Pensei que já tivesse deixado para trás essa fase”, disse ele depois das acrobacias no carro. “Nem me lembro mais da última vez em que usei o carro para isso.”

“Eu lembro. As pessoas não acreditam, mas lembro de cada vez. E não foram poucas. Carro é erótico. Viril. Aquela história toda de potência. Mil cavalos. Dois mil. É tudo muito excitante.”

A urgência os fez íntimos em cinco minutos de conversa. Ela sabia o essencial sobre ele. Que era casado pela segunda vez com uma arquiteta portuguesa cinco anos mais velha. Que tivera dois filhos de um primeiro casamento. Que ia fazer 40 anos no mês seguinte e estava apavorado. Que tocara guitarra num conjunto de rock na adolescência. Que sonhara na juventude escrever romances e terminara escrevendo sobre jogos de futebol. Pior ainda, reescrevendo textos alheio. “Saber o que restou desse meu sonho? Uma estante imaginária cheia de romances escritos por mim.”

E ele sabia também o essencial dela. Que tentara se matar tomando comprimidos de sua mãe hipocondríaca na noite em que soubera que Pedro morrera num acidente com sua moto. “Não ter conseguido me matar é minha maior frustração”, disse ela. “Teria sido tão lindo, tão poético. Morrer de amor é algo que pode acontecer a você apenas uma vez na vida. Depois ninguém mais merece que você se mate.” Ele soube também das fantasia sexuais que Gabriela desenvolvera com Pedro. E soube que ela, como ele outrora, também planejava escrever romances. Já estava, na verdade, escrevendo um. Nele o protagonista se chamava Pedro, mas não morria. Não morria nunca. Eterno Pedro. “Quando as coisas dão errado na vida, sempre resta a ficção, não é?” Ele disse a ela que esperava que o romance sobre Pedro não fosse parar também numa estante imaginária. E entendeu que nada nem ninguém jamais conseguiria prender aquela mulher que era a quintessência da liberdade. E entendeu também que sua vida se tornaria insuportavelmente enfadonha depois que ela partisse. O que achava realmente estranho era que tivesse podido viver quarenta anos sem Gabriela.

3 Respostas to “Era uma vez em Salvador – parte 2”

  1. Gabriela Says:

    Vc deve ter conhecido alguma Gabriela. Será que somos todas iguais?

    Quanta essência, sutileza, delicadeza, erotismo.

    Vou devorar o teu blog, sei que já deve estar piegas ouvir isso, mas meus parabéns.

  2. Gabriela Says:

    Vc deve ter conhecido alguma Gabriela. Será que somos todas iguais?

    Quanta essência, sutileza, delicadeza, erotismo.

    Vou devorar o teu blog, sei que já deve estar piegas ouvir isso, mas meus parabéns.

  3. guigo Says:

    cara fabio…valeu pelo texto……instante imaginaria……..massa.

    ps….queria que todas as mulheres fossem iguais a gabi.

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