Era uma vez em Salvador – Parte 3


 

Era a última noite. Acabara o campeonato à tarde e Gabriela viajaria na manhã seguinte para São Paulo. Estavam jantando sarapatel no Tempero da Dadá, no Pelourinho. Ela se encantou ao ver um fogão no meio do restaurante.

“Na semana passada vim aqui e o Caetano estava sentado naquela mesa”, Eduardo disse.

“Adoro o Caetano”, ela disse. “Mas não a ponto de ouvir uma música inteira dele.”

“Eu gostava muito do Caetano. Agora nem tanto. Você viu aquela reportagem com ele na Caras?”, ele perguntou.

“Vi. Vi e ri. Achei o máximo saber que ele tem um relógio Bulgari. Hoje ele é um homem de grife. Mas é simplesmente ridículo patrulhá-lo por ter aparecido na Caras.”

“Você reparou?”, Eduardo disse. “Ele está cada vez mais parecido fisicamente com o Fernando Henrique. Mesmos paletós finos, mesmas camisas finas, mesmo pé na cozinha.”

Eduardo riu. “É batata. Todo paulista é racista. Paulista só gosta de paulista.”

“Imagina. Amo pele escura. Acho o Michael Jordan um deus. O homem mais bonito do mundo. Dá de dez em qualquer ator da Globo ou de Hollywood.”

Gabriela fez uma cesta imaginária e graciosa com as mãos. Ela estava de jeans e camiseta branca. Tinha prendido os cabelos num rabo-de-cavalo e parecia uma estudante diante de um dos primeiros encontros. Ele usava jeans e uma camiseta pólo vermelha. Ele tirou da calça um envelope e passou-o a ela.

“É um poema. Não precisa ler. Só peço para não arremessar no lixo, pelo menos na minha frente.”

Ela olhou-o com surpresa.

“O que você está estranhando? Você imaginou mesmo que poderia conhecer um baiano sem ter que enfrentar um poema? O que eu posso dizer para aliviar sua preocupação é que ele é curto.”

Ela leu-o uma, duas vezes. Repetiu a última frase. Ela. Sempre ela. Sempre dela. Ela. A beleza miserável da quimera.

Era um poema ridículo, mas ela o achou lindo.

“Não sei se estou chorando ou se está chovendo em Salvador”, ela disse.

Ela olhou de novo para o papel.

“Quimera. É a palavra mais linda do português. Gozado. Um dia eu usei quimera num texto e meu editor disse que ninguém sabe o que é. Ele riscou a palavra. Editores servem para isso. Riscar palavras.”

Ele concordou. “É, pensando bem, é isso que eu faço. Riscar palavras dos outros.”

Eles saíram do restaurante e foram andar de mãos dadas pelo Pelourinho. Era mais uma noite quente e abafada. Gabriela lembrou-se do comentário de Eduardo sobre a falta de ar condicionado nas ruas de Salvador. Um sentimento de melancolia parecia ir dominando-�

“Sabe o que eu acabei de pensar?”, ela disse. “Nós não temos nem uma foto nossa. Amanhã você vai esquecer como eu era. Não vai lembrar nem se eu era loira ou morena.”

“Mas o cheiro… Deus, posso ter 80 anos e nunca vou esquecer seu cheiro. Seu … seu cheiro de femea, como aquele bobo chamado Fabio Hernandez escreveu uma vez.”

Ele levou por reflexo o indicador às narinas, fechou os olhos e inspirou com vagar apaixonado. Quando estavam na cama ele sempre deixava o dedo médio direito dentro dela por instantes. Depois, enquanto a penetrava, sorvia o cheiro em demorados haustos, e era como subir ao céu.

“Engraçado”, ele disse. “Eu detesto vôlei de praia, mas não queria que aquele campeonato acabasse nunca. Sabe que contagem eu fazia? Nós ainda temos quatro jogos. Agora três. E então não havia mais nenhum jogo.”

“Por que o jogo sempre termina””

“Talvez fosse um tédio insuportável se ele não terminasse”, ele disse. “Talvez um jogo só possa ser bom exatamente porque ele acaba.”

Ele a levou em seu carro

para o hotel, mas não subiu. O porteiro do hotel apressou-se em abrir a porta do carro, mas ela o dispensou. Queria algum tempo mais.

“A gente entra numa histórias dessas pensando que só vai ser divertido e no fim…”, disse ela.

“E no fim se diverte mesmo, não é? Olha como estamos felizes.”

“Sabe . Eu estive pensando. Se for menino, vai se chamar Eduardo. Dudo. Meu pequeno Dudo.”

“O menino não merece esse castigo. É inocente. O nome é horrível. Nunca perdoei meus pais.”

“E se for menina vai ser Eduarda. Maria Eduarda. Duda.”

“Vou dizer uma coisa que você vai achar ridícula. Queria que esse filho fosse meu.”

“De certa forma é.”

“E que você também fosse minha.”

Ela abriu a porta. Antes de sair, virou-se para ele. “A gente…será que a gente volta a se ver?”

Ele não soube o que dizer. Pensou numas palavras que lera num pequeno quadro. Certas pessoas. Certas pessoas passam pela nossa vida por um breve momento, mas tem um impacto tao grande sobre nós que depois delas nunca mais somos os mesmos, e vemos o céu e a lua de uma forma diferente. Quase disse isso a ela, mas desistiu. Ficou apenas parado, em silêncio, vendo-a afastar-se em direção ao elevador no seu passo rápido de paulistana.

20 Respostas to “Era uma vez em Salvador – Parte 3”

  1. escrevedora Says:

    show!

  2. escrevedora Says:

    show!

  3. PequenAprendiz Says:

    Mestre ( lol ), esse eu ainda não conhecia.
    Adorei seu humor refinado (o qual me lembra muito Maugham), suas ironias, a entonação erótica e suave do texto.
    Me atrai a sua facilidade de contagiar e prender o leitor até a última linha, lhe provocando um gostinho de quero mais.
    Tamt. Bx!

  4. Julia Says:

    Gosto muito da maneira como repara e escreve sobre os detalhes…o “inho” no nome de um marido e a falta de respeito, a palavra quimera é linda e ninguém usa ou sabe o que é, o passo apressado das paulistanas, absurdamente real…

    Que texto gostoso de ler, Fábio. Muito bom!

    beijos

  5. Anónimo Says:

    3×0 sets pra Nadja!

  6. Anónimo Says:

    3×0 sets pra Nadja!

  7. Mariana Says:

    Excelente, Fábio!
    Bjos, boa semana!
    Mariana

  8. Mariana Says:

    Excelente, Fábio!
    Bjos, boa semana!
    Mariana

  9. Levoubolo Says:

    Quem evocou o nome de Nadja neste espaço está equivocado. Gabriela é um amálgama de várias mulheres de Fábio (e uma tática para que todas creiam que ele se refere a cada uma delas) – além dele próprio, em sua obstinada-obsessão por Where did you sleep, etc. Pra começar: não seriam 52 quilos,mas 48. Contudo, confesso que o nome Arizinho arrancou uma gargalhada. Essa Gabriela não vale nada, hein?!

  10. Anónimo Says:

    pefeito… mas ela tinha q usar um vestido preto?!? se era volei nada melhor q um a bermudinha e uma camiseta… n´e uma critaica, apenas uma ideia…

    mas mesmo assim foi perfeito, uma liberdade maravilhosa de ser quem é, e sem ser julgada.

  11. bic azul Says:

    é em Greene que você se inspira para botar frases tão magistrais na boca dos seus personagens?

    parabéns pelo conto.

  12. Anónimo Says:

    que texto gostoso…

  13. mirelle Says:

    amei o conto! É muito envolvente!

  14. Ana Says:

    Confesso, sou nova ainda e apesar disso carrego mil pré-conceitos, mas até eu me encantei com a protagonista do conto, “perdoei” a amante e até torci para que o Eduardo fosse pai. Mérito do autor.
    Ah, o texto dá tesão, rsrs

  15. Ana Says:

    Confesso, sou nova ainda e apesar disso carrego mil pré-conceitos, mas até eu me encantei com a protagonista do conto, “perdoei” a amante e até torci para que o Eduardo fosse pai. Mérito do autor.
    Ah, o texto dá tesão, rsrs

  16. Gabriela Says:

    Só mais um comentário para se misturar aos tantos outros.

    Parabéns.

    Essa sua Gabriela com ares de Lou Salomé me fascinou.

    Pq será?

  17. guigo Says:

    caro fabio…..vivi um romance desse naipe ae…quando tinha 18 anos e foi sublime….mas ao contrario do seu texto…..ensaiei um reencontro…..e pra variar acabei estragando tudo.

  18. Anónimo Says:

    Este texto me inspirou a procurar um pouco dessa Gabriela dentro de mim.

  19. Anónimo Says:

    Este texto me inspirou a procurar um pouco dessa Gabriela dentro de mim.

  20. Nicky-san Says:

    Ai, que história mais linda!

    Sabe, se eu fosse menino, meu nome seria Eduardo 🙂

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