Fábrica de anjos


Lembro bem a cena, anos depois. Em geral, episódios assim são alegres. Mas não era o caso. Eu acabara de chegar ao pequeno e aconchegante apartamento de Júlia quando ela me contou a novidade. Estava grávida. Foi um acidente. Ela sempre usava diafragma. Quando estávamos a ponto de nos engalfinhar na cama, ela se levantava, caminhava no seu passo leve até o banheiro e, com a porta sutilmente entreaberta para que eu pudesse vê-la como se estivesse roubando a visão de uma cena intensamente erótica, colocava o diafragma. Uma única vez não colocou, porque estávamos ansiosos demais. Essa vez foi suficiente. Júlia engravidou sem que quisesse. Sem que nenhum de nós quisesse.

Não houve grandes dilemas. Na verdade, não houve nenhum dilema. Júlia, quando me avisou que estava grávida, já tinha o telefone de uma clínica de aborto. Uma amiga que fizera um aborto ali lhe dera o número. Ela apenas me comunicou que não iria levar adiante a gravidez. Nos amávamos, e muito, mas não era a hora. Na nossa vida, existem horas certas e existem horas erradas, e aquela era uma hora errada.

Lembro que ela estava convicta, ou assim parecia, ainda que seu olhos amendoados de mestiça de mãe japonesa e pai brasileiro traíssem tristeza. Os cabelos presos num rabo de cavalo contribuíam para dar a Júlia, uma mulher sempre tão decidida, um ar para mim inédito de menina frágil. Ela me disse que queria demais ter um filho, mas não naquelas circunstâncias. Eu não tentei convencê-la de nada. Não sei se ela esperava que eu procurasse dissuadi-la. Nas poucas conversas posteriores que tivemos sobre o assunto, Júlia nunca se referiu a esse ponto específico.

Tudo que ela parecia esperar de mim era alguma ajuda moral, e o máximo de suporte amoroso. Levei-a à clinica, no dia marcado. Alguns dias depois, já de volta a seu apartamento, Júlia me contou que era um menino. Eu seria cínico se dissesse que o aborto me deixou abalado. Mas estaria mentindo se dissesse que ele representou apenas alívio para mim. O fato é que eu não sabia, naqueles dias, o quanto um aborto pode significar para um homem. Não sabia quanta perplexidade, quanta pergunta sem resposta pode trazer com o correr dos dias. Aquele aborto é uma marca vívida em minha vida. Ainda hoje acho que fizemos o que tínhamos que fazer, mas alguma coisa dentro de mim parece não se satisfazer inteiramente com a explicação lógica e racional para a ida de Júlia à clínica.

Li depois em algum romance – ah, sim, um de John Irving — a expressão fábrica de anjos para designar uma clínica de aborto. Sempre que me lembro do aborto de Júlia, aquela expressão me vem à mente e me traz um sentimento de dúvida. . É uma dúvida incomodamente vã, porque sei que não existe resposta possível para ela nem jamais existirá. Nosso namoro durou pouco mais. Não acredito que tenha terminado por causa do aborto. Cada qual tinha seus projetos. Júlia foi ter o filho que tanto queria com outro homem. Eu segui meu caminho de escritor barato, um solitário caubói barato das letras. Às vezes penso no filho que Júlia, que amei tanto, e eu não tivemos. Como ele seria. Que tipo de ligação manteria com o pai que não teve. Formaríamos uma dupla de tênis? Riríamos ou choraríamos diante de uma vitória ou derrota do nosso time? Traríamos calor um para o outro em momentos de desalento? Eu o veria garboso ao longe e pensaria, orgulhoso, que ali ia o meu menino? Nesses momentos, me vem um incômodo que não é grande senão por me fazer sentir pequeno.

14 Respostas to “Fábrica de anjos”

  1. Núbia Says:

    Seus textos têm tanto sentimento.

  2. Joao Pedro Says:

    Maravilhoso se texto, ja passei por isso e sem o quanto as duvidas incomodam

  3. Aracelo Says:

    Lindo, pra variar. Todos comentos erros. Podemos classificá-los? Um erro é sempre negativo? N se sinta menor por isso. E não és escritos barato. És fabuloso. Grd abraço.

  4. Aracelo Says:

    Lindo, pra variar. Todos comentos erros. Podemos classificá-los? Um erro é sempre negativo? N se sinta menor por isso. E não és escritos barato. És fabuloso. Grd abraço.

  5. senhorita rosa Says:

    Olá Fábio. Eu teria passado por coisa semelhante, não fosse um problema grave de família provocar um aborto espontâneo. Estava decidida, mas até hoje não sei se teria tido coragem. Era o primeiro namorado sério; e anos depois, pensando, acho que o único homem com H maiúsculo que eu namorei – e com quem terminei por ter errado no timing [afinal, foi o primeiro, e que moça do século XX se casaria com o primeiro?].
    De certo modo a decisão não foi minha, embora já tivesse sido tomada. Nunca soube o sexo, nunca soube nada.
    Mas mesmo assim às vezes me pergunto o que eu teria feito se não tivesse acontecido.
    Dúvidas, sempre temos. Mas as escolhas que fazemos, são, sempre as melhores que poderíamos ter feito naquele momento. Eu acho.
    Bj, adorei teu jeito de escrever!

  6. Maria Says:

    Não se culpe, não era o momento, o momento pode ser hoje e com certeza será muito bem vindo;na vida tudo tem o seu tempo certo

  7. Anónimo Says:

    Suas histórias parecem tão reais!!!
    me emocionei… vale chorar???
    bjs,
    bia.

  8. Frederico Thompson Says:

    De faro, deve ser duro trazer isso na consciência pelo resto da vida… sem ter como voltar atrás. A presença de mais filhos não pode compensar…

  9. Carlos Augusto Rosa Says:

    Fábio, tenho dois filhos e nenhum aborto nas costa (que eu saiba), se nós formos esperar pela hora certa para tê-los, este momento será nunca. A vida fica mais rica, mais alegre, mais cara também. Porém a felicidade que um filho traz é indescritível. Assisti o parto de minha filha(é a segunda) depois disto, se eu tinha dúvidas da existência de Deus, não tenho mais.O nascimento de um ser humano é coisa divina.Você passa a valorizar mais as mulheres e a vida.Às vezes temos que tomar decisões na vida que provocam profundas mudanças afetivas e emocionais, ter ou não filho é uma delas.É um caminho de ida sem volta.O final de seu texto é uma reflexão que retrata a verdade profunda de momentos da nova vida.Parabéns pela coragem, o tema ainda é muito polêmico.

  10. alguem Says:

    estou passando por este mesmo problema agora. tenho 29 anos, moro com meu namorado e engravidei sem querer (intervalo entre pilulas)…, estamos em um momento ruim do relacionamento, acho que nao vai durar mais tanto tempo. Tambem tenho duvidas sobre se ele sera um bom pai ou nao. Na realidade, ele ja tem uma filha e eh um pai muito ausente…, acho que nao mudara comigo. Alem do mais, acho que nao eh meu momento … eh tao angustiante. Sempre achei filho coisa muito seria, para se dedicar de verdade … quantas duvidas…

  11. Julia Says:

    Você sabe escrever sobre momentos tristes como ninguém. Eu não sei explicar o que senti ao ler pq nunca passei pela experiência, mas deve ser algo que se leva até o fim dos dias…

    Beijos,
    Julia

  12. Anónimo Says:

    Comovente. Não chorei, mas quase (tinha uma amiga que dizia que eu chorava lendo bula). Participei de uma “decisão” abortar/não abortar, venceu o não abortar; e hoje tenho uma sobrinha linda de 16 anos cheia de vida e minha amiga. Mudou minha opinião. Não somos Deus, embora seus filhos. Sinto por este desconforto, mas é o preço. Muito bons teus textos. Um abraço. Jair

  13. Anónimo Says:

    Comovente. Não chorei, mas quase (tinha uma amiga que dizia que eu chorava lendo bula). Participei de uma “decisão” abortar/não abortar, venceu o não abortar; e hoje tenho uma sobrinha linda de 16 anos cheia de vida e minha amiga. Mudou minha opinião. Não somos Deus, embora seus filhos. Sinto por este desconforto, mas é o preço. Muito bons teus textos. Um abraço. Jair

  14. guigo Says:

    caro fabio….acho que fez a coisa certa….a vida é muito dura para…..vc piorar ainda mais…..talvez vc se sentisse pequeno com o filho tambem…..espere a verdadeira mulher…e lance sua familia….doa a que doer…..

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