A cartomante



E então subo a escada do sobrado acanhado de Pinheiros. Pouco antes, levara um susto. Um grupo de garotos passara por mim na rua escura, e temi fortemente pelo meu iPod. Demoro um pouco na frente do sobrado. Não há indicação de nada. A parte de baixo é um salão de beleza. É começo de noite, e havia apenas uma freguesa. Bato timidamente na porta e pergunto se é ali que ela atende. Sim, é lá. Na parte de cima. Numa sala modesta, cheia de papéis velhos e livros consumidos pelo uso e pelo tempo, uma sala parecida com o consultório de um médico do interior. Estou diante dela. Da cartomante.

Ela está de branco, os cabelos são curtos e claros, e a idade está entre 50 e 60, com mais chances para 60. Maternal. Algum tempo atrás, eu riria se alguém me dissesse que eu iria consultar uma cartomante. Fui de esquerda, li Marx, Lênin, Trotski. Materialista ateu, tecnicamente. Só acreditar no que se pode tocar e provar. Essa a minha essência. Deus? Só se eu pudesse cumprimenta-lo. O tempo me afastou da esquerda. Marx cedeu lugar a Adam Smith na minha lista de inspirações. Falta uma Margareth Thatcher para o Brasil é uma das minhas raras convicções. Mudei muito, mas não no ceticismo sólido em relação a tudo que não se possa provar. Das cinzas para as cinzas. Tenho a convicção de que, ao morrer, me integrarei à grande ordem cósmica. Mas na condição de pó. E não me importo. Não gostaria de viver duas vidas, ou uma vida eterna, ou sequer durar muitos anos. Não quero contemplar as ruínas de mim mesmo e do meu tempo.

Definitivamente não. Cícero escreveu, na Arte de Envelhecer, que é um paradoxo: as pessoas querem viver muito, mas quando conseguem isso, ao chegar à velhice, ficam infelizes. Eu não quero viver muito, está bem? Portanto, a Arte de Envelhecer, um pequeno grande livro que ensina a ver o lado bom do envelhecimento, não serve para mim.

Mas lá estou eu diante da cartomante. Eu ali? Sim, eu ali. Acredito? Não. Ou melhor. Não sei. Não sei se acredito. Mas estou ali, e não é num ato de fé, e nem de desespero, mas de curiosidade. Amigos meus foram lá, e voltaram encantados. Provavelmente ouviram o que gostariam de ouvir, e basta olhar para um rosto aflito para perceber quais as palavras que lhe trarão alento e alegria.

Ela se acomoda na cadeira diante de uma pequena mesa, e eu me sento à frente dela. Pede que eu escreva meu nome, e depois começa a fazer cálculos. Numerologia, diz ela. Depois de alguns instantes, o diagnóstico numerológico.
“Seu número é onze. É o número da determinação, da obstinação. Todo mundo quer ser onze, mas poucos conseguem. Eu mesma. Uma vez pensei em acrescentar alguma coisa a meu nome para dar onze, mas depois achei melhor ficar do jeito que é mesmo”
Ela me diz que devo assinar meu nome por inteiro, para cravar o onze. Com o passar dos anos, fui simplificando minha assinatura. Eu teria que mudar a assinatura, e isso é complicado legalmente. Vou pensar no caso. Mas isso não tem saído de minha cabeça. A cada vez que assino meu nome, lembro das palavras da cartomante.

Em seguida ela pega um baralho. É o do tarô. É gasto, encardido. Muitas mãos o usaram, muitas mãos ainda o usarão. Ela distribui as cartas na mesinha. Puxa algumas cartas, e vai falando. “Seu casamento. Acabou mesmo. O que vocês tinham que fazer juntos, fizeram.” Sim, ela está certa. Fim de caso. “Um amor antigo ronda você, e também um novo.” Ela puxa uma carta para o “amor antigo”, e depois puxa outra para o “amor novo”. “Ixi, não queria ser você. São duas cartas muito boas”. Ela sublinha, na fala, o “muito”. “Vai ser difícil você decidir. As duas cartas. Não podiam ser melhores. O amor antigo. Há raiva, ressentimento, desconfiança. Mas vocês são almas afins. Vão ter que resolver essa história em algum momento.” Ela faz uma pequena pausa. “Provavelmente em outra vida.”

Lol. Laughing out loud. Rindo. Outra vida de guerra amorosa? Não consigo imaginar. Mas também não acredito em vidas futuras, portanto, tudo bem. “O amor novo. A carta mostra que vai te trazer alegria, leveza. Mas cuidado. Não seja galinha.” Galinha, eu? Tenho muitos defeitos, mas não este. “Não, não sou ga ….”, estou falando, mas ela me interrompe e conta a história de um cliente que ficou com tantas mulheres por tanto tempo que acabou sem nenhuma. “Você vai ter que ter paciência com este novo amor. Respeitar o tempo dela.” Respeitar o tempo dela? Que será que a cartomante quis dizer? Ela também comenta que estou numa fase fértil. “Portanto, cuidado. 2009. 2009 é um ano bom para você ser pai mais uma vez.” 2009. Soma onze. Dois, zero, zero, nove. Meu número. Será?

Na última etapa, ela diz que vai responder a perguntas específicas. “Sim sim, não não”. Sem evasivas, quer dizer. “Vou escrever um grande romance, como Gatsby?” Alimento alguma esperança enquanto ela puxa uma carta. Mas. “Não” Meu destino é ser um escritor barato. “Gostaria também de ser roteirista. Nos Estados Unidos. Ganhar em dólares. Um seriado como Friends. Vou ser?” Pouca expectativa, agora, admito. “Não”. Tempo de ir embora. Uma hora. Pago a consulta, e me encaminho para a porta. Antes de ir, ela me chama ainda uma vez. “Ei Fabio”. Viro o rosto. “Sobre aquele assunto. As duas cartas. Não queria ser você.” Rio, e vou responder que também eu não queria ser eu, mas decido me calar e seguir em frente.

10 Respostas to “A cartomante”

  1. Sua PequenAprendiz Says:

    Seja qual for a sua escolha, espero que ela te faça MUITO feliz, como você merece ser.
    Obrigada por tudo, Mestre! Principalmente pelo apoio, atenção e carinho nessa fase tão difícil pra mim.
    Tamt. Bx!

  2. rachel Says:

    olha, querido escritor barato de quem sou fã; provavelmente isso é ficção. mas correndo o risco de você não fugir da maldição dos escritores baratos; que é escrever com uma pontinha de realidade, fica a minha dica. se tiver coragem, resolva nesta vida. porque se você der o azar de ficar velho, vai, provavelmente remoer até morrer, disso.
    boa sorte.
    porque você não perguntou se não poderiam ser ‘os dois’? (rs)
    beijo,

  3. Sincera Says:

    Temer por um Ipod? Não deveria temer pela vida? Então tanto faz o amor novo ou velho. Ou nenhum. Não é isso que lhe interessa.

  4. Sabrina jung Says:

    Fica logo com a Maria Eduarda!!
    Ela vai te fazer muito mais feliz!!!
    Bjus

  5. bic azul Says:

    Cartomante… não a do conto de Machado de Assis, nem aquela que encorajou Macabéia. É a sua própria!

    Parabéns pelo ótimo texto. Querer saber o futuro, ler as linhas do destino, é um desejo tão tolo quanto humano.

    Um abraço.

  6. Ana Says:

    Sabe, sempre que a minha vida fica confusa penso em fazer uma consulta com a cartomante. Mas aí eu espero um pouco, o tempo passa e a vida se revela. Se a dúvida persiste, eu pego um livro de poesia que eu gosto muito, penso em uma pergunta e abro. Geralmente recebo uma resposta inspiradora. Boa sorte nos seus dilemas!
    beijo

  7. Julia Says:

    Eu também não queria ser eu. Frase sensacional! É a cara do Fábio Hernandez. Imagina falar isso para a cartomante? Eu queria ver a cara de desorientada que ela iria fazer…

  8. Anónimo Says:

    uau 1achei d+

  9. Anónimo Says:

    como acredito em vidas passadas e futuras, sugiro q vc resolva a questão do passado… rsrs Se for a Nadja, melhor resolver logo, ne? Imagina outra vida de loucura…
    Bj.

  10. wilker Says:

    quero namorar

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