Para sempre perdida


Summer Evening, de Edward Hopper

ENTÃO, UM DIA, NADJA ME DEIXOU. Um novo amor apareceu para a vulcânica Nadja, e eis aqui o velho amor despachado para … Me vem à cabeça uma música cantada por Kurt Cobain no triunfo do Nirvana em Nova York ( o Acústico da MTV): despachado para onde sopra o vento frio e o sol não brilha nunca. Where the cold wind blows. (Tenho para mim que é a maior interpretação da história do rock, mas este não é o melhor espaço para comentar isso.)

Sob o risco de plagiar alguém (acho que a mim mesmo, na verdade), digo o seguinte. Entrar num relacionamento é como entrar num trem. Podem mudar as estações, mas o destino é sempre o mesmo. Tristeza, decepção, mágoa, adeus. O extraordinário é que nenhum de nós desiste de entrar no trem. É o que um grande frasista francês La Rouchefoucauld chamava de triunfo da esperança sobre a experiência. Ou terá sido Dr. Johnson?

Tive fé cega em Nadja e mim. Acreditei que nada poderia nos separar. Ninguém neste mundo, ou em qualquer outro, teria esse poder. É o que eu presumia, em meu otimismo romântico. Éramos como Romeu e Julieta, John e Yoko, Liz e Burton: dois que formam um. Ou, como disse Montaigne sobre a amizade que o uniu a La Boétie, uma união de duas almas em que não se nota a costura. Mas eis que… eis que o trem chegou a seu destino inescapável.

Tive raiva. Vontade de espremer aquele pescoço tão delicado. De cravar um punhal naqueles seios durante tanto tempo tão disponíveis. Confesso tudo isso. E confesso também que senti a tentação de dizer que ao ser enxotado do trem reagi com a fria elegância inglesa. Mas não posso mentir. Não aos menos num blog que se diz de um homem sincero.

É muito bom sentir todas aquelas tentações sanguinolentas. In a certain way. Porque elas significam que foi bom. E é ainda melhor não transformar as tentações em realidade. Porque a euforia efêmera do “justiçamento” cede lugar a um pesadelo de uma vida inteira. E, além do mais, se você suprime literalmente quem lhe deu um fora, você perde a oportunidade de dizer certas verdades que esqueceu de dizer. E a verdade é que a gente sempre termina um relacionamento sem dizer, por não nos ocorrer no tumulto do fim, verdades essenciais. E é preciso ter uma nova chance de dizê-las.

Alguma coisa de Nadja sempre estará em mim. Ou muita coisa. Você sempre desce do trem mais rico do que entrou. Li um texto de Erica Jong em que ela falava de um namorado rústico que tivera num país remoto. O namorado rústico era casado e Erica escreveu uma frase que achei linda: eu preferia ser a mulher a cujos braços ele corria a ser a mulher de quem ele fugia.

Erica terminava dizendo que sempre que lhe vinha à mente a palavra sexo imediatamente lhe ocorria a imagem do namorado rústico. Nem sempre sexo é uma palavra comovente, mas a reflexão de Erica – oh, essa necessidade imperiosa de ser sincero – me deixou úmidos os olhos.

E então eu digo que sempre que alguém falar em paixão vou pensar em Nadja. E então peço licença para uma última citação.

Perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na cidade da minha saudade.

Eu jamais conseguiria escrever uma frase tão linda como essa de Rubem Braga para Nadja.

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28 Respostas to “Para sempre perdida”

  1. Rafaela Bastos Says:

    Fabio, seus textos são otimos.

    Adorei!!!

    Passarei por aqui mais vezes =)

    Bjos e Otimo feriado!

  2. Rafaela Bastos Says:

    Fabio, seus textos são otimos.

    Adorei!!!

    Passarei por aqui mais vezes =)

    Bjos e Otimo feriado!

  3. Daniella Leite Says:

    Adoro suas confissões, mas gosto mais ainda de sua loucura franca.

    Muito obrigada por ser sincero.

  4. Daniella Leite Says:

    Adoro suas confissões, mas gosto mais ainda de sua loucura franca.

    Muito obrigada por ser sincero.

  5. Araceli Says:

    Uai, mesmo com vontade de cravar o punhal, vc ainda tem vontade de encontrar essa moça perdida? Tem q ser mesmo mto romântico…

    Belo texto. Gostei.

  6. Anónimo Says:

    Dá para parar de falar nessa chatice de Nirvana? Adolescência retardada?

  7. Anónimo Says:

    nós não escolhemos a quem amamos, mas certamente escolhemos com quem vivemos.

  8. ivan Says:

    mt bom seu texto. Tb tenho uma Nadja na minha vida e, diferente de vc, hj inicio meu relacionamento com ela. Tomamos o trem! E espero que a parada, qdo vier, seja boa. Ou ao menos em boa hora.

  9. Anónimo Says:

    Mulheres aparecem e desaparecem em nossas vidas, o que fica são os momentos felizes vividos. Esqueçamos os momentos sofridos.Que venham sempre as mulheres, com muito amor!

  10. Anónimo Says:

    Eu queria um dia que um homem sincero se apaixonasse por assim como você foi pela Nadja.

    Mas eu não queria ser a Nadja, que fique claro.

    Eu queria a sua paixão, a sua sinceridade, a sua entrega, num homem que eu quisesse. Que eu abrisse a porta do trem e ele já estivesse por lá a me esperar…
    ò fantasia boa e boba!

    Sempre bom te ler!

    =**

  11. Anónimo Says:

    continuo acreditando q o amor é escolha…

  12. Anónimo Says:

    Todas nós, mulheres, temos um pouco de Nadja (ou qualquer nome que queira)! Nós, mulheres, quando nos apaixonamos fazemos uma entrega total (esse o erro). Também acreditamos que esse trem não vai parar nunca, que teremos mais sorte, que saberemos conduzir (ou nos deixamos conduzir?) esse timão, dando um rumo diferenciado ao relacionamento… Mas, sempre há de chegar o fim da linha e, nesse caso, é melhor sabermos que ocorrerá e, assim, não ficaremos vagueando pelo mundo dos sonhos. A realidade é o hoje, o instante presente e, é desse momento que devemos extrair a plenitude que fará do nosso amanhã, a lembrança de que agimos com consciência da efemeridade dos momentos vividos. e, sigamos em frente…

  13. ORLANDO MARTORI Says:

    ESTOU CASADO JÁ FAZEM 40 ANOS,E, AINDA HOJE,SINTO PELA MINHA ESPOSA O MESMO AMOR,A MESMA PAIXÃO, O T….,QUE EU SENTI QDO A CONHECI,LEMBRO-ME PERFEITAMENTE A PRIMEIRA VEZ QUE EU A VI,LEMBRO DO PRIMEIRO BEIJO ROUBADO,DA PRIMEIRA VEZ QUE A TIVE EM MEUS BRAÇOS, A PRIMEIRA VEZ QUE FIZEMOS AMOR,NÃO SEI VIVER SEM MINHA ESPOSA E PODEM ACREDITAR NESSES 40 ANOS SEMPRE FUI FIEL E TENHO ABSOLUTA CERTEZA QUE ELA TAMBÉM FOI E ÉH FIEL E ME AMA.

  14. Anónimo Says:

    Grandes amores, grandes desencontros

    Dia desses estava conversando com uma amiga justamente a respeito dos grandes amores de nossas vidas. E da celeuma, o quanto fomos o grande amor da vida dos nossos grandes amores, ou de pessoas que jamais serão nossos grandes amores.
    Isso me fez lembrar de Drummond com seu imortal “João amava Teresa, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili, que não amava ninguém”, parece que isso é mais comum do que se pensa. Tem sempre alguém amando uma pessoa que não a ama, e a minha dúvida é, será que quem não ama ninguém consegue ser mais feliz?
    Até o Paulo Coelho cita a problemática quando diz: estamos sempre sofrendo por alguém que não nos ama, por alguém que nos deixou, por alguém que não quer nos deixar.

  15. Monique Says:

    Nadjaaaaa!!! Se vc não quiser eu quero!!!! 🙂

  16. Monique Says:

    Nadjaaaaa!!! Se vc não quiser eu quero!!!! 🙂

  17. Daiane Portugal Says:

    La Rouchefoucauld… meu guru póstumo ha anos, agora citado por um tal fabio hernandez…
    belas citações…
    eu, quando penso em sexo, penso em ricardo.
    e quando penso em amor, dou risada…

  18. rachel Says:

    republiquei uma crônica do contardo calligaris (psicanalista f@#)@ que escreve pra folha de sp) lá no terapia. tudo a ver com teu texto, que, pra variar, eu adorei. passe lá, é meu convidado. acho que vai gostar.
    beijoca e mais nadjas. elas existem… é questão de acreditar, e torcer para que os defeitos sejam outros. e o fim também, porque seja o la ou johnson, a gente sempre acha que pode/deveria/irá ser diferente.
    bj bj e boa semana,

  19. rachel Says:

    republiquei uma crônica do contardo calligaris (psicanalista f@#)@ que escreve pra folha de sp) lá no terapia. tudo a ver com teu texto, que, pra variar, eu adorei. passe lá, é meu convidado. acho que vai gostar.
    beijoca e mais nadjas. elas existem… é questão de acreditar, e torcer para que os defeitos sejam outros. e o fim também, porque seja o la ou johnson, a gente sempre acha que pode/deveria/irá ser diferente.
    bj bj e boa semana,

  20. Emma Says:

    Para os que não conhecem a música a qual o Fabio se refere é : “Where did you sleep last Night”. A Courtney Love foi uma espécie de “Nadja” na vida do Kurt Cobain, só que ele – ao invés de escrever uma crônica – agiu de forma, digamos, mais radical…e acabou “partindo dessa pra melhor” ( melhor??!!).

  21. Bada Says:

    como diria minha sabia avó: “não devemos orender nem pássaros nem corações”
    Na próxima estação sempre terá novas passageiras

  22. Bada Says:

    onde lê-se orender quer dizer prender, sorry

  23. Anónimo Says:

    Ser sincero é difícil, não? A sinceridade nos obriga a descer do trem na hora certa , com dignidade,e não adiar a descida como muitos fazem e prolongam a viagem do sofrimento.Perder alguém é horrível em qualquer situação.A viagem continua .Há sempre uma paisagem a ser vista pela janela.

  24. Anónimo Says:

    Simplesmente perfeito. Um desabafo em verso e prosa. Todos passamos por isso, porém alguns perdem a classe.

  25. Anónimo Says:

    Todo mundo que conheceu vc e a nadja sabe que ela foi o abraço para o qual vc corria, como essa erica jong, até que um dia se cansou deste amor clandestino
    Vc preferiu ficar com outra, de quem se separou fez bem pouco tempo. foi desonesto de sua parte. Desculpa, mais é o que eu acho, vendo de fora. Mesmo assim, vc escreve bem. Nao é muito sincero, mas escreve bem.

  26. Anónimo Says:

    rsrsrsr
    mulheres e homens… se completam e se destroem.

    sem pre q leio o nom e nadja lembro da cobra naja… associação de idéias?! talvez….

  27. Anónimo Says:

    rsrsrsr
    mulheres e homens… se completam e se destroem.

    sem pre q leio o nom e nadja lembro da cobra naja… associação de idéias?! talvez….

  28. Anónimo Says:

    rubem braga escreveu para nadja?
    assim é melhor: eu jamais conseguiria escrever uma frase tão linda para nadja como essa de rubem braga.
    ass: pascoalete

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