SÉTIMO ANDAR


Um quadro de Paula Rego

 

FOI QUANDO TOCOU no rádio aquela música que ele percebeu, enfim, que tudo acabara. Era a música triste de um filme que tratava de andróides e de caçadores de andróides. Não mudei tanto, refletiu ele. Continuo a torcer pelos andróides contra os caçadores. Já não era capaz de se emocionar com aquela velha máxima de que um dia os expropriadores seriam expropriados, mas não mudara tanto assim. O breve devaneio foi logo engolfado por uma onda de melancolia. A música ia tocando e a sensação de que perdera a moça de olhos verdes adquiriu a força de uma dor física. Quantas noites não tinham sido embaladas por aquela melodia tristonha, quantos gemidos não se tinham confundido com o solo de saxofone, quantos sonhos não tinham sido esculpidos?

Nada parecia poder separá-los, mas haviam-se separado tão facilmente.

Uma conversa, algumas lágrimas, uma porta que se fechava, o fim. Ele apanhou o elevador no sétimo andar. Desceu e não subiu mais. Lembrava cada detalhe do apartamento dela: o quadro esquisito na parede, as pilhas de revistas, a geladeira sempre abastecida de Coca-Cola, o controle remoto com que nunca conseguira controlar a televisão. Como você é desajeitado, ela dizia, tão linda e tão nua, os dedos percorrendo o corpo dele e fazendo-o sentir que a felicidade não estava tão distante assim. Não, decidiu ele, ninguém mais poderia chamá-lo de desajeitado.

Imaginou aqueles dedos percorrendo outro corpo, mas logo afastou a visão. Não porque sofresse, mas por achar tudo irreal demais. Ela lhe contou, algum tempo depois, de seu novo namorado. Era carinhoso, era compreensivo e estava apaixonado. Moravam praticamente juntos e pensavam em casar-se. Não era nenhum contos de fadas, disse ela, mas, pensando bem, não existe nada mais antiquado nestes tempos digitais do que contos de fadas. E o namorado era bonito, mais bonito que qualquer um dos antecessores. Não estava apaixonada, mas paixão tumultua a vida e ela agora desejava a paz. Que mais ela poderia querer? Durante a conversa, notou que os olhos verdes pareciam brilhar ainda mais, dois faróis esverdeados desafiando as brumas do passado. Talvez estivessem úmidos, mas era mais provável que a umidade estivesse, na verdade, nos olhos dele.

Relembraram cenas. Os beijos bêbados de gin tônica que trocaram naquela primeira noite, as brincadeiras num hotel de campo, a loucura cometida no escritório naquele final de tarde insano dele . Quem levantou a saia dele foi ele ou foi ela mesma? Foi a única vez em que se amaram de pé, e falavam baixo como se estivessem diante de um confessionário, e aqueles breves minutos pareceram a eternidade. Todas aquelas cenas relembradas deram a ele, por um momento, a ilusão de que nada acabara, ele continuaria a apertar o botão do sétimo andar e subir. Mas aí a música dos andróides tocou e ele soube que a perdera.

Etiquetas: , ,

15 Respostas to “SÉTIMO ANDAR”

  1. Emily Says:

    Como as músicas nos fazem lembrar tantas coisas ne???
    Muitas vezes estou rindo, alegre… e derrepente, a maldita música toca e meu humor vai embora, sou tomada de lembranças, de saudades, de vontades…
    Os olhos se humidecem sim…
    Mas pensar que algo melhor sempre estar por vir é o que me consola!!!
    Acreditar no Deus do impossível…
    Apenas isso…

  2. Renata Says:

    Gostei muito do texto , me trouxe boas lembranças , impossível não sentir um pouco de melancolia quando o fim chega .
    Parabéns muito bom
    bjs

  3. Anónimo Says:

    Muito bom o texto, realmente músicas nos trazem boas e as vzs nem tão boas lembranças…….o negócio é se concentrar nas coisas boas e curtir o momento…..e o texto parece que foi feito pra mim…….um dia tb tive uma paixão com uma garota de lindos olhos verdes tb……valeu Fábio!!!

  4. Anónimo Says:

    nossa eu lembrei na hora de um ex era deste jeito…quando vc fala quem subiu a saia dele ela ou eu ai eu não entendi direito???? + tudo lindo!

    sua fã sol brasilia-df

  5. Eduardo Barros Says:

    Por acaso essa música nao é do filme Blade Runner? Caso seja é maravilhosa e inesquecível…..mesmo sendo triste…….mas quem nao gosta de uma música triste para lembrar do passado?

  6. Izabel Says:

    Lembranças de um caso de amor, as vezes são tão reais que machucam a gente. vc fala do botão do sétimo andar, existem botões, músicas, fotos no meu caso lembro quando dá aquela hora que ele sempre chegava, ouço o ônibus do horário parar no ponto e sempre espero que ele bata na porta que eu tantas vezes abri para recebe-lo mas lembro que tb o perdi e a espera é sempre em vão……

  7. Fabrizio salina Says:

    Caríssimo, seus escritos são muito bons. Mas creio que se levou à sério demais e está em depressão, no estado em que a criatividade se esvai. Ou estarei enganado? Tomara que sim… Neste caso, só lhe resta apaixonar-se perdidamente por uma nova mulher. Digo isto porque os textos são bons, mas para os neófitos em “Fábio”, trata-se das Supercolunas… Não sei se fico feliz por reencontrá-lo, ou triste, por sua pena estar, digamos, sem tinta. Boa sorte, Hernandez, com a vida, pois com as mulheres é impossível…

  8. jo Says:

    verdade emily, é incrivel como certas musicas podem nos levantar o animo, ou simplesmente nos derrubar,, nao sei se o homem passa por isso, mas as vezs ser mulher nesse aspecto é uma droga! rssss

  9. Marcus de Juli Says:

    Sempre digo que toda palavra carrega um sentimento. Uma música então é uma avalanche! Costumo muito tb dizer que os amores não morrem, eles adormecem. Num canto canto obscuro da alma eles clamam por luz. Deve ser por isso que é nos olhos do ser amado que o encontramos. Quase sempre, como tudo na vida. Seus textos estão maiores, seu palco está maior. Parabéns!

  10. Anónimo Says:

    Eu acredito que todo casal, apesar dos pesares sempre encontra uma forma para tentar mudar a suas vidas no relacionamento, no cotidiano, etc. Porém se chocam com a realidade que são os frutos deste amor, os filhos. Acima de tudo Deus impera a questão. Creio eu que nada como uma reflexão em conjunto para solucionar qualquer problema. Quando se ama, tudo se pode superar…

  11. France Says:

    Eu acredito que todo casal, apesar dos pesares sempre encontra uma forma para tentar mudar a suas vidas no relacionamento, no cotidiano, etc. Porém se chocam com a realidade que são os frutos deste amor, os filhos. Acima de tudo Deus impera a questão. Creio eu que nada como uma reflexão em conjunto para solucionar qualquer problema. Quando se ama, tudo se pode superar…

  12. elaine Says:

    É verdade, a maldita música,que nos faz lembrar de algo bom, que para nós ninca acabou…
    Sempre vem a lembraça, toda vez que me lembro “dele” fico muito trioste, mas oq me conforta é saber que lá em cima existe um Deus do possivel e do impossivel, e que estaremos junto num momento chamado SEMPRE.
    Quero dizer p/ não desistirem dos seus “sonhus”,quandu parecer impossivel é pq ja esta se resolvendu…..bjuxxx a todos vc’s.

  13. maressa Says:

    p*** merdaaaaaa…TRISTE e lindo demaiss!!

  14. Margarete Inacio Says:

    MÚSICA é companhia nas horas boas e más, elas impregnam na nossa vida e realmente transforma a melodia das nossas histórias…

    AMO MÚSICA …

    Beijos

  15. Cle Barros Says:

    é… mais certa que a música que anuncia o fim é o silêncio que antecede a morte. Esse, sim, grita nos ouvidos e faz qualquer coração parar. Amei seu texto. Obrigada, Fábio.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: