Reencontro


E então ouço uma canção ao acaso de um controle remoto que zapeava sem rumo e sem objetivo. A imagem que aparece é a de um programa de televisão com as cem melhores canções de filmes. Lá está Seems Like Old Times, de Annie Hall, para mim o maior filme de Woody Allen. Poucas vezes o cinema captou com tamanho lirismo a essência de uma relação amorosa, a glória e a miséria sempre associadas ao homem e à mulher cujos braços se entrelaçam.

Imobilizo o controle e fixo a atenção em Diane Keaton, no auge da feminilidade, cantando Seems Like Old Times. Parece como nos velhos tempos. Ela está num bar. As pessoas conversam nas mesas. É a primeira vez que ela canta em público. Um público bêbado e desagradável, como é sempre o público de um bar em que o cantor será eternamente um coadjuvante na noite, mas ainda assim é um desafio para ela. Ela titubeia, parece fraquejar, mas triunfa ao escandir as palavras tocantes de Seems Like Old Times. A música trata de um reencontro, e eu não sei por que fecho sempre os olhos e viajo para remotas paragens no trecho em que o narrador afirma que ainda se comove ao caminhar ao lado daquela que ficou para trás.

Não haverá volta, é apenas um reencontro, e isso torna tudo ainda mais belo em Seems Like Old Times. Em Annie Hall, a letra da canção se transforma em realidade. Os dois se separam e, tempos depois, ao andar pelas ruas de Manhattan, recordam cenas do grande amor que viveram. Pareciam os velhos tempos, mas depois que se despedissem os dois retomariam cada qual a sua nova vida. Há uma intensa carga de melancolia nos reencontros, e isso a fita de Woody Allen e a canção que a simboliza mostram magistralmente. Não haverá dia seguinte, não haverá noite seguinte, não haverá novos capítulos. Dói, como dói. As lembranças atormentam em vez de acalentar. Onde nos perdemos de nós mesmos, onde foi? Essa pergunta emerge tenebrosa e cruel nos reencontros, e sempre sem resposta lógica.

“Fuja dos reencontros amorosos”, me recomendava Tio Fabio, um homem sábio do interior. Este era um dos pontos cruciais da cartilha sentimental de Tio Fabio, um homem cultivado na filosofia e na arte da galanteria. O tempo me fez entender a advertência de Tio Fabio. Os casos de amor nunca terminam suficientemente bem para que permitam reencontros doces. Se o final foi calmo, é porque não foi amor real. Os amantes arrastam sua paixão muito além do razoável. Uma história de amor verdadeira termina antes da despedida. Em alguns casos, bem antes. Os dias, as semanas em que os dois permanecem juntos sem que na verdade estejam são neuróticos. Destrutivos.

No mundo perfeito, os casos de amor terminariam na hora certa. No último beijo que funcionou. Na última vez em que o amor e a generosidade triunfaram sobre o ódio e a mesquinharia. Mas isso não acontece. A gente sempre ultrapassa o ponto ideal no término dos relacionamentos. É a maldição dos homens e mulheres apaixonados. A quem hesita diante do telefone para ligar para uma amor perdido em busca de um reencontro com o de Annie Hall, lembro as palavras de Tio Fabio. Só telefone se foi um amor de mentirinha.

13 Respostas to “Reencontro”

  1. roberta Says:

    sábio Tio Fábio..

  2. Priscila Says:

    Caro Fábio. Acima de tudo é necessário estar preparado para o reencontro. Vivi, recentemente, esse lance do “término da história de amor” antes da despedida. Depois de quase um ano, consegui reencontrar a pessoa que hj representa o meu passado, todo o meu sofrimento, de uma maneira mto tranquila. Até eu me surpreendi! rs… Percebi q depois da queda o melhor é vc saber q está preparado para levantar e tem o controle da situação… Pensei mto nesse reencontro, sonhei, sofri, chorei. E ele se fez necessário pra que não precisasse mais dele na minha vida. Me sinto bem. Se a vida quiser, ok, mas não penso mais em reencontrar essa pessoa. Abraços!

  3. Valquiria Says:

    Olá Fábio!É sempre um prazer encontrar coisa boas pra se ler,sabia?Um texto inteligente,fácil de degustar…rss.Eu creio que tudo na vida tem um propósito.Nada é coincidência.Passamos o que temos que passar e pronto.Choramos,sofremos,odiamos e chegamos à conclusão que foi melhor assim….Enquanto não se acerta,continua-se a procurar!O que não dá é ficar parado,sentado e esperando algo bom acontecer.Parabéns….o seu texto é otimo!!!!!abraços….

  4. Anónimo Says:

    Se esse seu texto tivesse sido escrito há uns 3 meses atrás…
    Vivi um reencontro desses fulminantes e passamos 2 meses juntos que pareceram 20 anos mas pelo menos agora sei que chegou ao fim de verdade.
    E o telefone? Ah, aboli esse equipamento lá de casa rsss

  5. bic azul Says:

    Eu desejei por tudo um reencontro que após anos finalmente aconteceu. Eu queria pedir desculpas pelas coisas erradas que fiz. Finalmente Deus e o destino me concederam essa dádiva. Minha paz voltou e posso seguir minha vida em frente, agora.

  6. Anónimo Says:

    nossa fabio fiquei toda arrepiada c/ esse texto lindo demais!seu tio fabio e mesmo sabio e vc escreve demias mesmo cheio de sentimentos eu nunca vi um homem assim juro! porque geralmente os homens são uns trocroditas sei sentimentos ou melhor finjem pois não querem se expor sei la … bem enfim agora vc é sensivel, sincero e culto isso me emociona …. sua fã sol brasilia-DF

  7. Julia Says:

    Seu tio é sábio. Eu sempre me pergunto sobre os ex amores onde foi que nos perdemos de nós mesmos…Será que alguém sabe?
    Quanto aos reencontros amorosos acredito que seja o triunfo da esperança sobre a experiência…No fundo, somos tolos em acreditar.

  8. Fernanda Alves Chaves Says:

    Fabio… Fabio Hernandez….
    Lembro exatamente do dia que mandei um e-mail a ti (ainda quando escrevias para a revista VIP), falando sobre o quão bom és como escritor. E, por incrivel que pareça, você respondeu!!! hehehe…
    De lá pra cá, não te largo. Confesso que já não deixo recados, nem comentários. Inclusive não mandei mais e-mail’s. Em contrapartida, saiba que, tudo o que escreves, toda fundo em minha alma. Por conta disso, muda a minha vida. Como esse singelo texto.
    Parabéns e… obrigada!!!
    Beiijocas,
    Fer…

  9. Sabrina Jung Says:

    Parabéns!!! Hoje é o dia internacional dos blogs!!!!

  10. Mirella Says:

    Bom dia. Confesso que não conhecia esse blog e agora, hoje, neste exato momento, não sei nem o que falar após ler tantos textos mágicos… Existe mesmo alguém, real, de carne osso e sentimentos, capaz de escrever tais coisas?? Tô impressionada com a forma que tu escreve, com a menira que deixa aflorar os sentimentos e faz com que, nós, aqui do outro lado desligue o computador na esperança que mais pessoas por este mundo a fora venha a ser como você. Escritor barato?? Brincandeira né?! Acho que tu deveria deixar de ser escritor para dar palestras ou então ser orientador em análise de casal, hehe. Grande beijo.

  11. Anónimo Says:

    Boa tarde
    Adorei o artigo. Acabei de terminar uma relação e se fosse escrever algo, seria esse texto. Gostaria de saber o nome do filme do Woody Allen.
    Um grande bj

  12. Rosana Says:

    Olá,
    Sinceramente, me surpreendi ao ler o texto. Acho que há exceções. Reencontrei o meu primeiro e grande amor depois de 38 anos, nos telefonamos, e-mails e jamais foi um Amor de mentira! Não fugi do reencontro… Foi muito “doce” e ainda está sendo! Foi, e é um Amor inesquecível, inigualável.
    Alguns anos atrás… pensava existir somente nas telas. Hoje, os atores somos nós, com a diferença de protagonizar na tela da vida real.
    Abraços.

  13. Anónimo Says:

    So telefone se foi um amor de mentirinha…Será?

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