Tempo de morrer


Existe uma passagem num livro do Machado de Assis que acho maravilhosa. (É de Memórias Póstumas de Brás Cubas, se não me engano. Mas atenção: posso estar enganado. A verdade que estar enganado tem sido um dos eventos mais freqüentes de minha vida.)

A cena é a seguinte. O protagonista encontra um bilhete. Era para marcar um encontro clandestino. Quem o mandara fora a mulher casada com quem ele mantinha um caso. O caso, tórrido no início, vinha lentamente morrendo. Ao ver o bilhete, seu coração disparou. Como no começo. Mas depois ele verificou que se tratava de um bilhete velho. E então que o sobressalto excitado cedeu lugar à melancolia nostálgica. Aquele amor estava perdido, para sempre perdido.

A cena machadiana é, para mim, o retrato perfeito das estações inexoráveis que um caso de amor percorre. Existe um tempo de nascer e um tempo de morrer. Existe um tempo de florescer e um tempo de declinar. Isso está escrito, de um forma muito mais bela, num dos pedaços mais sábios da Bíblia, o Eclesiastes. Há um tempo para tudo. (Quem me deu esse capítulo bíblico para ler foi meu Tio Fabio, um homem sábio do interior. Eu estava arrasado com o fim de um namoro e ele me disse: “Lendo isso você vai aprender que há um tempo para rir e um tempo para chorar. E também que, a rigor, não há nada de novo sob o céu”. Para mim, Tio Fabio é um homem tão sábio quanto o Eclesiastes.)

Mas o que eu queria mesmo dizer é que, também para o amor, existe um tempo para nascer e um tempo para morrer. É muito mais fácil identificar a primeira etapa do que a segunda. E é também muito mais fácil de lidar com a primeira. O surgimento do amor arrebata. É uma explosão tão poderosa que não há como não perceber, por mais distraído, por mais insensível que você seja. Você acha graça até num congestionamento. (E então me ocorre que amar pode ser perfeitamente definido como a capacidade de achar graça num congestionamento.) Você descobre que, pensando bem, seu chefe horroroso até que tem seu pontos positivos. Isso quer dizer que você está amando.

Essa é a parte bonita: o nascimento do amor. A parte dura é a outra: o tempo de morrer. Você não quer acreditar. Você finge que tudo é igual. Você pratica a forma suprema da mentira: mente para você mesmo. Era para sempre, não era? E quando enfim você admite interiormente que o amor morreu, a dor é tanta, tanta que você resiste pateticamente a dar curso prático a essa admissão e terminar o caso. E então o que se vê são finais dolorosos de amores que morreram já há um bom tempo. Finais cruéis. Cruéis como… sei lá, cruéis como um velho cossaco russo, como diz meu Tio Fabio.

Num mundo perfeito, os braços se desenlaçariam em despedidas supremas (essa linda expressão não é minha. É da Eça de Queiroz. Estou citando muito?) tão logo fosse percebida a morte do amor. Mas o mundo está longe de ser perfeito. E então se prolonga uma situação de miséria em que tudo que se consegue é um ferir o outro. Em que não se ganha nada senão mágoa e ódio. . Todos nós lutamos em vão contra o tempo de morrer quando o que está em jogo é o amor. Aprender a lidar com a morte amorosa é uma das maiores conquistas que alguém pode fazer na vida. Tolamente recusamos até o fim – na verdade até depois do fim – a idéia de que nosso amor partiu para a sinistro reino do nunca mais, nunca mais, nunca mais.

21 Respostas to “Tempo de morrer”

  1. Leila Says:

    Sabemos que o amor pode morrer, mas o ruim da historia é que o amor do outro morre antes do da gente. Abç.

  2. Louise Emille Says:

    Uma vez, escrevi: “O tempo de chorar e o tempo de sorrir coexistem. Tornam-se um dentro da alma humana”. O fim de um amor é a prova de que ele não existiu. Por que insistimos tanto em dizer que amamos aqueles pelos quais nos apaixonamos? O amor não tem fim. É assim que vejo, ao menos.

    Adorei o modo como escreve, procurarei passar mais vezes por aqui! ^^

    Beijos!
    Louise

  3. Sara Says:

    as vezes parece que o melhor é não ter começado se ia acabar… rsrsr! Mas essa é uma ideia muito covarde!

  4. Anónimo Says:

    Quando o dito”amor” morrer é que já estamos vivendo a realidade dos humanos,porém,quando amamos pertencemos a realidade dos deus.Platão afirmava:” que o verdadeiro amor é que nunca se concretiza.”Eu não tenho duvidas disso.Forte abraço.

  5. Ale Says:

    Sabe Fábio, quando aceitamos a idéia de que as pessoas entram em nossa vida por uma razão ou uma estação e ficam o tempo suficiente para nos ensinar algo, acredito que se torna um pouco menos doloroso aceitar a perda. A vida é como um trem, que não pára nunca, é preciso estar ciente de que muitas pessoas entrarão, mas terão q partir tbm, para dar lugar a novas e assim nós vamos nos lapidando e crescendo. Eu aceitei e absorvi o melhor do meu ultimo relacionamento e sou grata por ter sido eterno enquanto durou. Abraços!

  6. Flávia Almeida Says:

    Mais uma vez, sua definição para as coisas do amor foi absolutamente PERFEITA.

    Bjos.

  7. Anónimo Says:

    A morte de um amor é inevitável. E ainda há aqueles que, na UTI, esperam pelo último lampejo do parceiro, se apegando à esperança de que poderá sair de lá renovado, alimentando-a, esquecendo-se que no fim, e apesar de última, a esperança também morre.

  8. Fênix Says:

    A morte de um amor é inevitável. E ainda há aqueles que, na UTI, esperam pelo último lampejo do parceiro, se apegando à esperança de que poderá sair de lá renovado, alimentando-a, esquecendo-se que no fim, e apesar de última, a esperança também morre.

  9. Anónimo Says:

    Nossa vc c/ sempre usando bem as palavras … lindo mesmo! penso que quando o amor da gente não acaba e do outro sim ai é pedreira para esquecer, para não sentir raiva e odio e isto é muito triste , fica um vazio e a pergunta o que eu fiz ? porque acabou assim? um beijo e saiba vc é tudo de bom em fabio!!!

  10. Anónimo Says:

    Acredito que o verdadeiro amor resiste a cada prova;aprende com os erros e incertezas de nossos sentimentos e coloca em cheque o final da história!

  11. wagner costa da silva Says:

    apesar de acreditar e ter acreditado verdadeiramente nisso que chamam de amor sincero,amor verdeiro, amor pra vida inteira,ainda não me dei conta que perdi alguém ao qual meu coração ainda nao esqueceu.
    Amor e suas finalidades,amor que mata e acalma o pior dos dias, amor este que nós humanos não temos a real sensação para exemplificar em palavras.

  12. Anónimo Says:

    Apesar de ter apenas 25 anos, acho que compreendo que tudo na vida é passageiro a felicidade são pequenos momentos que quando fazemos um tipo de balanço final da vida podemos saber se valeu a pana ou não. O problema não é a morte do Amor, mais sim como ele morre.
    Beijos

  13. Anónimo Says:

    Adoro quando você faz citações. Posso recorrer a elas enquanto espero seu próximo post! Mas sobre a morte do amor, realmente é muito dificil aceitar a morte de sentimentos, inlcusive, amor. Morte de amizades que se julgavam eternas tambpem são dolorasas. Mas por acreditarmos que perdemos 1 e termos 100, não nos preocupamos muito. Já a morte de uma amor é quase a mesma coisa que a nossa morte! Mas deve ser tão sentida quanto o nascimento do amor. Porque se realmente vivenciada a morte de um grande amor, quando um novo surge estaremos plenos para ele.

  14. Eduardo Barros Says:

    Isso me lembrou um famoso poema do Edgar alan Poe “o Corvo”, pelo menos para mim ele passa a impressão de um amor perdido que não volta mais, e o corvo esta ali (simbolicante) todos os dias para nos lembrar disso…..” e o corvo disse: nunca mais!”……..abraços

  15. gisele soares dos santos Says:

    EU ACHEI MUITO INTERESANTE ESTE COMENTÁRIO, REALMENTE DEVEMOS POR NA MENTE QUE NEM TUDO NA VIDA É PARA SEMPRE MUITO INTERESANTE MESMO

  16. Tamy Says:

    Aceitar o fim é tão difícil, que preferimos nos tornar cegos, a suportar tamanha dor. Imaginar que uma coisa tão linda, pode ter um fim e das suas variadas e piores formas…
    Parabéns Fábio, você é incrível.!

  17. Tamy Says:

    Aceitar o fim é tão difícil, que preferimos nos tornar cegos, a suportar tamanha dor. Imaginar que uma coisa tão linda, pode ter um fim e das suas variadas e piores formas…
    Parabéns Fábio, você é incrível.!

  18. Daniela Paixão Says:

    Quando um não quer, dois não brigam. Mas quando um não quer e o outro ainda ama? Você conseguiu resumir o estado de negação romântica de quem “levou um pé…” O amor não morre, ele se transfere. Nós é que temos de sobreviver!

  19. Lylla Says:

    Muito interessante essa sua reflexao sobre o termino do amor, li certa vez algo semelhante em um livro chamado a Arte de Amar de Ovidio Nasao, onde ele fala em um trecho do livro justamente sobre terminar definitivamente o amor, ele dizia que para o amante sempre o melhor dia de acabar o amor era o proximo (nao exatamente com essas palavras) e, que com isso o amor ia se prolongando, embora morto, sem que os envolvidos tivessem vontade ou coragem terminar com ele. Muito bom mesmo… Parabens.

  20. Anónimo Says:

    gostei muito desse texto, parabéns…Estou passando por um momento desses, tá difícil, doi demais, mas fazer o que? É uma pena que enganam a gente quando dizem que vão nos amar para sempre…

  21. arnold Says:

    no começo tdo é bom, tdo é lindo, mas depois……..até uma ferrari na garagem vira um fusca!! rs

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