A grande arte e a dor


Kurt Cobain. A angústia jovem. Ninguém a captou de forma tão contundente, na história recente do rock, quanto ele e seu Nirvana. Uma passagem de KC me comove particularmente. O acústico do Nirvana na MTV em Nova York. A bandinha de Seatle conquistara a capital do mundo. O palco decorado com flores que evocavam, premonitórias, um velório. A última música. A derradeira. Tell me where did you sleep last night. Entra na lista das maiores interpretações do rock. Talvez a maior. Tão absurdamente épica quanto Sid Vicious sublimemente afrontando e destruindo My Way com seus berros desafinados e maravilhosos a um só tempo. Onde você dormiu a noite passada, pergunta Cobain, primeiro com delicadeza, depois com um grito de dor devastadora. I’m going where the cold wind blows, diz ele. Vou para onde sopra o vento frio. Só a dor mais lancinante produz uma música e uma interpretação daquelas. Pediram ao Nirvana bis. Que voltassem ao palco lúgubre. Os companheiros de Cobain queriam retornar, li depois numa revista americana. Cobain pensou e disse não. Sabia que jamais conseguiria alcançar a grandeza a que chegara em Tell me where did you sleep last night. É lindo de ver na tevê: a música se encerra e imediatamente surgem os letreiros que anunciam o final .Jamais houve bis. Na dor aguda, que mais tarde o levaria a enfiar uma arma na boca e atirar, ele alcançara a grande arte. A grande arte nasce da dor das ilusões perdidas, não da alegria. É a glória e a miséria do artista.

13 Respostas to “A grande arte e a dor”

  1. Kuba Says:

    Grande Fábio,

    o Tom Jobim revelou numa entrevista (se não me engano, para a Playboy) algo mais ou menos assim: “Cada música que eu escrevi foi uma mulher que eu não comi”. Sorte da música universal que o Tom não se satisfez tanto quanto quis. É claro que, além do óbvio exagero da declaração, eu posso ter errado as palavras exatas. Mas a idéia era essa: a inspiração nascida daquilo que não se fez. Não tão trágico ou sombrio como o seu relato do K.C. mas igualmente doloroso. Ainda mais quando se pensa no Rio e suas mulheres maravilhosas.

    Um grande abraço,

    Kuba

  2. bic azul Says:

    Arte é emoção representada. No tocante do sentimentos mais intensos nascem as obras imortais. Principalmente de dor, a qual estamos várias vezes mais sujeitos, mas também de felicidade, quando a percebemos e aproveitamos.

    Aproveito para expressar aqui minha admiração pelo seu trabalho. Te conheci na última página da revista e me perguntava o que havia acontecido e porque você havia desaparecido – ainda mais após o que escreveram na introdução do seu livro, o qual li com muito apreço. (Do que aquele sujeito falava, afinal?)

    Aproveito também para pedir que você use uns poucos minutos para visitar minha página de textos simples e me dê sua opinião. Seria uma honra.

    Inclusive, no texto a qual me refiro abaixo – escrito em 2006, faço uma singela (muito singela mesmo) homenagem. Segue o link direto.

    http://absurdosabstratos.blogspot.com/2007/02/destino.html

    Contudo, sua opinião sobre qualquer um dos outros textos lá disponíveis será muito bem-vinda.

    Um abraço.

  3. Israel de Assis Rosa Says:

    Me alegro ao saber que Kurt Cobain conseguiu passar seu recado. Mas me alegro muito mais ao ler um texto desses e perceber que novos gênios aparecem pra deixar mais recados e expressar de uma maneira tão clara tudo aquilo que vêem e sentem.

    Parabéns!

  4. Anónimo Says:

    Esse foi um dos primeiros CD’s que eu comprei, com as sobras do dinheiro que meu pai me dava para lanchar na escola. Comprei e jamais me arrependi. Até hoje o carrego comigo e me emociono com aquela interpretação de Kurt.
    Linda!
    Mas a minha preferida ainda é o cover do Bowie…
    Ele estava incrivelmente inspirado naquele dia.
    =)

    Bjo.

    PS: Sobre dor e arte… Eu também lembro da Frida (Kahlo). Outro exemplo.

  5. Anónimo Says:

    Esse foi um dos primeiros CD’s que eu comprei, com as sobras do dinheiro que meu pai me dava para lanchar na escola. Comprei e jamais me arrependi. Até hoje o carrego comigo e me emociono com aquela interpretação de Kurt.
    Linda!
    Mas a minha preferida ainda é o cover do Bowie…
    Ele estava incrivelmente inspirado naquele dia.
    =)

    Bjo.

    PS: Sobre dor e arte… Eu também lembro da Frida (Kahlo). Outro exemplo.

  6. Ellison Cocino Says:

    “A grande arte nasce da dor das ilusões perdidas, não da alegria.”

    Não generalize!

  7. Natalia Says:

    Foi talvez o único momento brilahnte de Cobain, eu que era fã da banda me desapontei enormemente na apresentação do Nirvana no Hollywood Rock, Cobain desafinou, ficou mudo em algumas músicas, quem roubou a cena foi Novoselic e Flea com seu trompete.

  8. Natalia Says:

    Foi talvez o único momento brilahnte de Cobain, eu que era fã da banda me desapontei enormemente na apresentação do Nirvana no Hollywood Rock, Cobain desafinou, ficou mudo em algumas músicas, quem roubou a cena foi Novoselic e Flea com seu trompete.

  9. Lidiane Says:

    Kurt Cobain ainda é uma figura intrigante, frágil, agressivo, eloquente e atraente. Alguém saberia dizer-me se ele, além do ‘diagnóstico’ de drogado e depressivo, teve outro? Ouvi dizer q seria bipolar…

  10. Paulo Says:

    Tudo bem achado, mas faltou acertar o nome da música, “Were Did You Sleep Last Night”, e citar que é uma canção folclórica, de autor desconhecido, mas popular na versão do bluesman Leadbelly.

  11. rico Says:

    Kurt tem o peso suave de quem perdeu de si o paraíso, mas que ainda o carrega nas costas.

  12. Alguém igual a você Says:

    E não seria a dor, e só a dor, que o faz escrever textos desesperadoramente belos?

  13. R. M. Gonçalves Says:

    Um grande artista, um grande cantor… destruído por um grande amor…
    Uma pena… uma perda inestimável…
    O sofrimento expressado através de palavras… da voz… well…

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