Lugarzinho


Gosto daquele filme. Você sabe qual. Aquele em que os dois amantes se despedem no aeroporto. Uma frase dele para ela pertence à história do cinema, pela intensidade apaixonada e pela beleza suave e melancólica: “Sempre haverá Paris para nós”. Paris. Lá, na Paris agora tão longe dos dois, os amantes tinham vivido dias de amor glorioso. Para nós dois seria exagero dizer que sempre haverá Paris. Mas que importa Paris?

Para nós haverá sempre aquele lugarzinho. Você sabe qual. Aquele restaurantezinho perto da praia. Quer dizer, não tão perto assim. Ele poderia ser à beira da praia, mas não é. Não dá para ver o mar, e nem para ouvi-lo, mas de alguma forma a gente se sente como num majestoso palácio oceânico naquele lugarzinho modesto que sempre haverá para nós dois.

Vejo-nos ali na mesa. Os garçons ao nosso redor. Eles parecem conhecer bem a clientela. Um deles pára alguns minutos diante de um casal, e a impressão que se tem é que são velhos amigos que, depois de um tempo distantes, colocam os assuntos em dia. Esse tipo de situação faz daquele restaurante um lugarzinho.

Lugarzinho significa especial. Nós dois na mesa perto da calçada. Parecemos em busca de alguma coisa, e não é de comida, ainda que estejamos num restaurante e à nossa frente haja uma grande mesa com saladas, massas e carnes variadas para as pessoas se servirem. Acho que estamos em busca de nós mesmos. Porque nós nos perdemos de nós mesmos. E então tentamos nos reencontrar naquele lugarzinho que sempre haverá para nós. Conseguiremos? Quanto a mim, tudo que sei é que vou tentar. No Gita, Krishna diz a Arjuna para não pensar no resultado de suas ações, e simplesmente realizá-las uma vez consolidada a convicção. Gosto disso. Fazer o que deve ser feito, sem me importar com o sucesso ou o fracasso. Apenas faça, ouviu Arjuna. A Nike usou Krishna em sua propaganda. Just do it. Apenas faça.

Estamos cerimoniosos no lugarzinho. É curioso. A intimidade se constrói em muito tempo, mas se destrói numa rapidez furiosa. Duas pessoas que durante anos fizeram sexo com volúpia de tantas formas se comportam como estranhas ao se reencontrar dias depois da separação. A intimidade dos amantes morre instantaneamente com o adeus.

Onde nos perdemos? Quando? Nos reencontraremos?

Deus, tantas perguntas. O lugarzinho. O lugarzinho perto e longe do mar, o lugarzinho em que pessoas simples como nós vão comer com sua família nos finais de semana, e no qual os garçons conversam com os fregueses como se fossem camaradas. Aquele lugarzinho vai ser nosso ponto secreto. Mesmo que nossa busca de nós próprios fracasse. Mesmo que esqueçamos até o telefone um do outro. Mesmo que viremos estranhos. Mesmo assim.

Aquele lugarzinho será para sempre capaz da magia de nos unir. Vai ser assim. Um dia alguma coisa vai me empurrar para o lugarzinho. Saudade? Teimosia? Curiosidade? Não sei. Alguma coisa me levará lá. E naquela mesa perto da calçada o acaso vai deixar uma cadeira vaga, à espera de que eu sente diante da luminosa presença e beleza que irradiam de você.

6 Respostas to “Lugarzinho”

  1. André Debevc Says:

    Ah…as pequenas traições a doer sempre, como diria Drummond… Quando lembro deste verso, lembro que não são só as pequenas traições que doem sempre. E leio seu texto, e lembro da distância imensa que separa, não mais que de repente, duas almas antes cúmplices no olhar e na cama. A gente se perde fácil de mais de quem somos, e mais fácil ainda de quem passamos a ser quando um relacionamento acaba. A tristeza do que não conseguiu ser dito. A sensação de não ter esgotado as possibilidades. O fracasso na tentativa (será que houve mesmo tentativa?) de salvar o que nos fazia felizes um pro outro. Quem amou tem um lugarzinho. Quem amou sente uma clássica pontada de dor quando lembra de um beijo dado naquele lugar milênios antes. Dói. O que não podemos resgatar dói muito mais do que qualquer pequena traição.

  2. adriana Says:

    Texto lindo,lindo, lindo…A verdade È sempre comovente…

  3. Julia Says:

    Belíssimo texto querido Fábio. Tão belo quanto Paris. Tão belo quanto todos os lugarzinhos que fazem uma história de amor.

    Beijo grande,
    Julia

  4. jane Says:

    Fábio,Parabéns !!! Realmente é um lindo texto…Eu até deixei escapar algumas lágrimas dos olhos , por está passando por um momento como esse. Conviver com uma pessoa tantos anos, de grande intimidade, e em apenas um adeus nos tornamos pessoas completamente estranhas.Mas pelo menos nisso tudo há um conforto. “Que não sou a única”

  5. Sandra Says:

    Maravilha de texto!Que lindo ver que em um mundo onde se banaliza o que devia realmente ser mais importante, exista quem não se envergonhe de demonstrar amor,carinho e saudade.Lindo mesmo!

  6. Sandro Says:

    Belíssimo texto como sempre..
    acho que todos os que amaram ao menos uma vez na vida tem um lugarzinho como esse..um lugarzinho cúmplice..um lugar pra toda uma vida.
    peguei esse texto e enviei para uma uma pessoa..uma pessoa que um dia foi tudo pra mim..nós também tinhamos o nosso lugarzinho..ela achou que eu havia escrito o texto pq contava exatamente a nossa estória..nosso lugarzinho..
    agora ela virou sua fã assim como eu..desde os tempos da revista VIP.

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