Archive for Setembro, 2010

Top 10 da literatura erótica

09/09/2010

Ilustração de Fanny Hiil, de John Cleland

E eis que a Senhorita Y, que gosta de levar umas bofetadas na cópula, reaparece. Desta vez, ela mostra ser uma erudita em literatura erótica. Fez uma lista dos 10 romances mais quentes. Gostei. Sinto falta de uma ou outra coisa. Desidéria, de Morávia, Ligações Perigosas, de Laclos, Fanny Hill, de John Cleland, Emmanuelle, de Emmanuelle Arsan, por exemplo. Mas é inegavelmente uma boa lista …

  1. O Amante (Marguerite Duras) A menina que se apaixona pelo cara 10 anos mais velho e descobre o amor e o sexo. MINHA HISTÓRIA!
  2. Lolita (Nabokov) Acho que gosto da história da ninfeta pelo fato de eu já ter sido uma! “Mas em meus braços, sempre foi Lolita”.
  3. Trópico de Câncer (Henry Muller) O contexto intelectual de Paris do século passado, o romance não linear.Td fascina e seduz nessa obra!
  4. Ananga Ranga (Malla) E scrito 1000 anos AC, a obra é perfeita para manter um relacionamento acesso sexualmente. Só poderia ser indiana.
  5. A Casa dos Budas Ditosos (João Ubaldo Ribeiro) LUXÚRIA resume esse livro pra mim.
  6. História de O (Anne Desclos) A narrativa é envolvente, O é livre, independente, mas um trecho é o mais encantador, e não é erótico: “Você confunde amor e obediência. Vai me obedecer sem me amar e sem que eu a ame”.
  7. A arte da Palmada (Milo Manara) Esse é no contexto de hoje: como uma palmada pode ser excitante e divertida!
  8. A filosofia na Alcova (Marquês de Sade) A educação de perversão dada por conselheiros a uma jovem. Obra prima! Tido até como filosofia!
  9. A vida sexual de Catherine M. (Catherine Millet) A autora descreve sua vida sexual bastante agitada: orgia e flertes inimagináveis!
  10. Zonas Úmidas (Charlotte Roche) Adolescente Memel (18 ) é uma heroína feminista com gostos sexuais extravagantes.

As confissões eróticas da Senhorita Y

08/09/2010

Recebi de uma atrevida leitora um relato que faço questão de compartilhar. Chamemo-la de Y, Senhorita Y. Ela alterna leituras regulares da Bíblia Sagrada e do Kama Sutra, e o resultado dessa mistura extravagante é que ela anseia por bofetadas sexuais. Se se confessa depois com um santo padre? Não sei.

Confesso que fiquei meio mordido ao ver uma menção desairosa a meu livro, que ela diz não ter tempo para ler. Ora, será que entre um tapa e outro não existe algum espaço para leituras?

Apesar de ser antagônica nas leituras, não abro mão de duas literaturas de cabeceira: A Bíblia Sagrada e o Kama Sutra. Leio, religiosamente, um bom trecho de cada um por semana. Talvez seja por isso que ainda não tive tempo de ler “Confissões de um homem Sincero”.

Nenhum livro me agrada totalmente. Eu não sou exigente. Sim, eu sou. É que livros trazem verdades absolutas de quem os escreve. E como não existe nenhum dedo da mão igual ao outro, não existem verdades absolutas que agradem a todos completamente.

Li no Kama que arranhões, apertos, pressão, são muito bem-vindos quando o casal não está apaixonado. Eu discordo. Quer dizer que casais apaixonados não merecem aventuras sexuais? Gemidos estridentes? Papai e mamãe agrada sempre?

Apertos, arranhões, tapas e palavrões fazem parte do universo “carnal” que merece existir em cima da cama, independentemente se há ou não sentimento.

Eu sou o perfil de mulher dominadora: comando dois adolescentes em casa (irmãos 10 anos mais novos que eu), sou líder no trabalho, nos negócios da família eu sempre palpito e não espero o cara resolver que me quer para que ele saiba que estou de olho nele. Bom, com tanta iniciativa na vida, achar um cara que te põe no seu lugar e manda no sexo é um luxo!

“Um tapinha não dói”. Não mesmo. E quem não prova, ou desaprova, é por puro preconceito (isso é minha verdade absoluta). Não que transar devagarzinho seja ruim. Nos dias de mimo, qualquer mulher merece ser tratada como princesa. Mas ser dominada como uma prostituta na cama, não tem preço! Um homem de verdade te mandando, te comandando… hum…

Ouvir expressões de temática erótica (cachorra, safada, vadia, vagabunda, puta, prostituta…) tiram de você a veste de mulher perfeita de almoço de domingo. Já é tão normal ser respeitada no ambiente familiar, profissional, que na cama isso pode ser enjoativo, piegas.

Ok, ok. Estamos aqui pra buscar o prazer mútuo. Que homem não gosta de ter uma mulher delicada, feminina ao seu lado, sentadinha como uma lady na cadeira do restaurante? Se essa mulher linda for capaz de sussurrar no ouvido que está sem calcinha e espera ele no banheiro, vai ter casamento logo. Quando é pra ser delicada, seja. Mas na hora da transa é necessário ser ousada. Liberta!

Puxões de cabelo bem perto da nuca, um tapa na bunda enquanto você está gloriosamente prostrada de quatro ou um cara enquanto ele te cavalga… Ah, não tem mulher que não grite. Não de dor. De prazer. É como se o orgasmo fosse igualmente explosivo ao tapa. Diretamente proporcional.

Claro que existe a linha tênue entra erotismo e obscenidade. Tudo que torna a carne objeto de desejo é erótico. Vontade de pegar, beijar, desfalecer. E (por que não?) bater. Apanhar. Gemer. O obsceno desvaloriza, humilha. Esse aí não é legal. Levar uns tapas te deixa viva! Dá a nítida sensação de que você é desejada por um homem viril, que comanda.

E nem na cama (sexo desprendido), nem no relacionamento (sexo comprometido), mulher deseja homem frouxo, ou estou errada?

O Amor e a Guerra

08/09/2010

Por Zéfiro

Uma revista masculina americana publicou, há algum tempo, um artigo que era uma espécie de elogio da violência no amor. Não, não. Estou exagerando. O artigo apenas falava como um pouco de guerra entre o homem e a mulher pode, na hora das pazes, resultar num sexo alucinante. (E lá vou eu para mais uma digressão: amo uma passagem do filme O Advogado do Diabo em que o Al Pacino descreve, para o marido traído, o sexo que fez com a mulher deste. Em sua voz tonitruante e cínica, ele diz mais ou menos o seguinte para o marido atormentado: numa escala de 0 a 10, considerando-se que o sexo papai-mamãe que você faz com sua mulher é 3, chegamos a 7.)

Enfim: o tal artigo dizia que, depois da guerra, o sexo podia subir alguns pontos na escala Pacino-Diabo. Havia até algumas evidências supostamente científicas para dar suporte à tese. Eu pensei o seguinte: pobres dos leitores e leitoras que decidirem testar. Guerra no amor não se controla. Não há retorno possível, uma vez começados os combates.

Os amantes que iniciam uma guerra talvez subam aos céus nas reconciliações sexuais, mas inapelavelmente descerão ao inferno para dali não mais saírem, miseravelmente derrotados. O inferno só vai terminar com o fim da relação. Acabado o romance, se o homem e a mulher estiverem inteiros, o máximo que conseguirão dizer de tantas coisas que viveram juntos é: sobrevivi. E não será pouco. Porque muita gente não sobrevive. Digo fisicamente mesmo. Um dos destinos clássicos da guerra amorosa, como na guerra convencional, é o caixão.

Eu falei acima em teste. Em casais que decidam testar a tese bélica da revista americana. Mas errei. A guerra no amor, como a globalização, não é escolha. É destino. Os tambores já começam a rufar, anunciando a guerra, quando certos homens e certas mulheres nem trocaram ainda o primeiro olhar de flerte. Pode acontecer que ele, o homem, tenha sido, em todos os outros relacionamentos, tão pacífico quanto uma ovelha tibetana. E ela também. Mas, ao se encontrarem, por alguma química estranha, os exércitos se mobilizam. E não demora muito para que alguém aperte o gatilho.

É o amor neurótico em ação. O amor neurótico é generoso como nenhum outro tipo de amor: proporciona momentos inigualáveis, sobretudo no sexo. E é também cruel como um cossaco russo. (Meu falecido Tio Fabio, um homem sábio do interior, é que me contava que não havia nada tão cruel como um cossaco russo. Jamais conferi a veracidade histórica dessa afirmação, mas confiei integralmente na sabedoria de meu tio.) Céu e inferno, céu e inferno.

Uma característica essencial no amor neurótico é que ou você pega o pacote todo ou não pega nada. Não dá para ficar com a parte boa e desprezar a ruim. Infelizmente, é impossível ter sexo com alta nota na escala Pacino-Diabo e, ao mesmo tempo, assistir de mãos dada à novela das 8 comendo pipoca. A fraternidade é uma impossibilidade científica no amor neurótico.

Uma outra característica vital do amor neurótico é que, no princípio, o êxtase predomina sobre a fúria. Há muito céu e pouco inferno. Aos poucos, numa marcha perversa e inexorável, a ordem vai se invertendo. Cada vez mais inferno, cada vez menos céu. No último estágio, do céu resta apenas recordações, mais e mais difusas. Você mal acredita que um dia as coisas andaram bem, tão destruidora a relação se tornou. É tempo de encerrar. Isto é, se você ainda estiver vivo para cair fora. Eu quase ia dizendo, pueril e inútil: fuja, fuja do amor neurótico enquanto há tempo. Mas não adianta: você é capturado muito antes de se dar conta de que se trata de um amor neurótico. Então termino dizendo apenas a quem está vivendo ou vai viver uma paixão dessas: boa sorte.

“Um dia eu achei que nós podíamos ser felizes juntos”

07/09/2010

Noite de Verão, de Hopper

“Eu não consegui fazer você feliz”, ela disse chorando. “Isso é o que me dói mais. Seus olhos tristes. Essa a imagem que vai ficar gravada em mim para sempre. Nunca te disse. Quantas vezes eu quis te pegar no colo por causa desses olhos tristes.”
Era uma conversa de fim de caso, em que os dois fazem um balanço melancólico das perdas e ganhos, em que o casal desfeito tenta entender o que deu errado, o que fez as ilusões do início se perderem, o que fez os braços de desenlaçarem. Em geral são conversas inúteis. Quase sempre um atira no outro a responsabilidade pelo naufrágio amoroso. Sartre disse que o inferno são os outros, e isso é uma verdade quase absoluta no amor. Raras vezes cada um admite sua parte e quando isso acontece tem-se o que se pode chamar de contribuição milionária dos erros. Cada um tem a chance de corrigir seus equívocos em futuros amores.

Aquela era uma conversa do tipo raro. Não havia amor entre eles fazia tempo, e ambos sabiam. O que os ligara um dia se dissolvera inteiramente. Apenas protelaram o adeus. Mas havia uma vontade neles dois em entender com profundidade o que acontecera. E era essa vontade que explicava a conversa honesta naquele momento.

“Você não teve culpa nenhuma em não me fazer feliz”, ele disse. “Quem poderia me fazer feliz? Eu mesmo. Mas. Mas. Sei lá. Isso era um projeto acima das minhas forças. Acho que eu tentei. Mas jamais tive força suficiente para me fazer feliz. Olho ao meu redor. Vejo pessoas infelizes a meu redor e me pergunto: qual delas foi bem-sucedida na tarefa de se fazer feliz?”

Schoppenhauer escreveu que a pior coisa que poderia acontecer a alguém era nascer. Dores, perdas, decepções. Morte. Schoppenhauer foi influenciado pelas filosofias orientais. A verdade essencial do budismo é que viver é sofrer. Alguns dias antes dessa conversa de final de caso Woody Allen dera uma entrevista na qual dissera que viver é sofrer. Allen, autor de dois filmes essenciais para quem gosta de grande arte no cinema, Annie Hall e Manhattan, não fora original na frase, mas verdadeiro. Mesmo o sorriso do Dalai Lama parece forçado se você observa o esgar de sua boca com senso crítico e não com devoção.

“Durante muito tempo eu também me senti culpado de não fazer você feliz”, ele disse. “Eu era pretensioso. Achava que podia controlar tudo. Até a sua taxa de felicidade. O tempo me mostrou que os mais infelizes entre os infelizes são aqueles que querem controlar tudo. Quando eles percebem que não podem, se sentem desesperadamente impotentes. Depois eles enchem os consultórios dos psiquiatras e tomam loucamente antidepressivos em busca de conforto para a pretensão destruída.”

“Um dia eu achei que nós podíamos ser felizes juntos”, ela disse. “Achei não. Tive certeza. Naqueles dias. Os primeiros. Eu revi as fotos para ver se era fantasia minha. Não. Nós estávamos felizes. De verdade, não de mentirinha.”

Passou por ele um trecho de Anos Dourados, a melhor parceria de Tom Jobim e Chico Buarque. Na fotografia estamos felizes.

“Minha mãe lá em cima e nós no tapete. Lembra?”

A mãe dela falava ao telefone demoradamente na parte de cima do sobrado. Eles aproveitavam para se engalfinhar no tapete branco e macio. Sabiam pelo barulho do telefone quando a mãe enfim terminara a conversa. E se recompunham.

Ele sorriu. Lembrava bem as tardes quentes no tapete. Mais tarde a tagarelice da mãe dela o incomodaria, mas ali era uma bênção.

“Onde foi que nos perdemos, onde foi?”, ela disse.

“Não sei. A vida nos perdeu, acho. Ninguém caminha junto uma vida inteira. O tumulto das coisas faz com que as pessoas se percam umas das outras. Irmãos se perdem de irmãos. Amigos se perdem de amigos. Amores eternos se perdem também no caos do caminho.”

“Aquelas tardes”, ela disse. “Elas existiram mesmo?”

“Existiram. Elas talvez nos compensem de tanta dor que trouxemos depois um ao outro. E nelas fomos de alguma forma felizes para sempre.”

Não dá pra ver o Edu voando pelos céus?

06/09/2010

Vi, numa revista americana, um anúncio que de alguma forma me comoveu. Acho que era de uma seguradora. Dois garotos estão encostados um no outro e lê-se o seguinte: lembra o tempo em que você podia contar com alguém?

Toquei no anúncio porque decidi falar, mais uma vez, dos amigos. Mais especificamente, das dificuldades que as mulheres acham que os amigos têm influência negativa sobre nós. E sentem um terrível ciúme deles. Como se cada centímetro de espaço que concedemos a nossos amigos representasse um centímetro a menos para elas. Elas mais ou menos nos dizem o seguinte: ele ou nós. Algumas dizem isso de forma mais clara, outras recorrem a sutilezas, mas a essência da mensagem parece sempre a mesma: amigo bom é ex-amigo.

Lembro com detalhes o que aconteceu com meu amigo Totó. Éramos adolescentes e nossa turma era simplesmente incomparável. Duvido que houvesse outra turma, em todo o mundo, tão fantástica. Éramos unidos, diversos nas partes mas coesos no conjunto, e nos amávamos tanto. Sabíamos que, desde que estivéssemos juntos, conquistar o mundo era uma tarefa bem fácil para qualquer um de nós. Pois um dia o Totó arrumou a primeira namorada séria. E a primeira providência dela foi afastá-lo de nós. Relembro a cena ainda com pesar: o Totó passando de mãos dadas com ela na outra calçada, longe da esquina em que nós ficávamos. Claro que essa namorada passou. Mas a mágoa da troca de calçada jamais foi esquecida pelos amigos. (Não me julgo um cara rancoroso, mas também eu jamais esqueci. Releio o que escrevi e noto que nem sequer o nome da namorada mencionei. Revanchismo. Mas aqui vai: Eliane.)

E então digo o seguinte. É um grande erro das mulheres a compulsão de detestar nossos amigos. Eles quase sempre estão do lado de nossas namoradas e nossas mulheres. Sobretudo quando estamos procurando, descaradamente, novas namoradas e novas mulheres.

“Você não vai fazer uma coisa dessas com a Maria”, “a Maria dá de dez nessa vaca atrás de quem você está correndo”. Eis algumas das frases que ouvimos de nossos amigos quando nos lançamos a aventuras. Eles, como certos cães de aparência assustadora mas com alma de bebê, só atacam quando são atacados primeiro. No caso do Totó, por exemplo, fomos atacados primeiro. Toda a campanha sanguinolenta que movemos contra a namorada foi apenas uma resposta ao golpe vil que recebemos.

Mulheres e amigos são complementares, como uma boa colher de Nescau e um copo de leite gelado. Cada parte tem sua função. A presença do Nescau não diminui o leite, nem a presença do leite diminui o Nescau. É uma imagem meio capenga, admito, mas preciso considerar que fui subitamente assaltado por uma feroz vontade de tomar um copão de Nescau gelado. (Copázio, corrigiria minha mãe, que jamais conseguiu dar um português decente a este seu filho.)

E antes que meu espaço se encerre quero dizer que dedico esta coluna à minha velha turma. A melhor turma do mundo em todos os tempos. Parece que os vejo ao meu lado agora. E reparo naquele ali, baixinho, de blusão de couro e chiclete na boca, o mais esperto de todos nós. É o Edu, o Eduardinho. Vejo o Edu como o Senhor do Mundo em cima de uma pequena moto azul de 50 cilindradas que ganhou aos 18 anos, os olhos com o fulgor arregalado de quem não conhece obstáculos que não possa transpor. E o vejo depois num paletó ridículo, que ele jamais usaria. Mas fora atirado de sua moto numa guia e estava num caixão. E então me ocorre que o Edu não viveu o suficiente para assistir à falência de seus sonhos de menino, como todos os seus amigos que sobrevivemos e seguimos em frente.

E então eu penso que se essa coluna fosse musicada, tocaria agora uma balada de Hendrix chamada Angel. E me arrepio. Uma vez, lá para trás, nós, da velha turma, estávamos ouvindo Angel enquanto fumávamos um baseado no quarto do Fernão. Um trecho da música fala de alguém que voa pelos céus. O Mingo disse: não dá pra ver o Edu voando pelos céus?

Como possuir as mulheres mais belas segundo Jean Jacques Rousseau

04/09/2010

Ele possuiu as mulheres mais belas de seu tempo sem que elas soubessem

Vamos elevar o nível dos debates.

Jean Jacques Rousseau, o popular Rousseau. Todos conhecem, com certeza. Presumo que citem frases dele com frequência. É pelo menos o que todos fazíamos em minha Havana natal, nos breves intervalos em que não estávamos na praia tomando sol ou derrubando mulatas maravilhosas que faziam nossos bispos (os sobreviventes) chutar postes.

Rousseau fez o mundo como o conhecemos. Os franceses que eliminaram brutalmente a monarquia foram inspirados por Rousseau e seu Contrato Social, que certamente vocês já decoraram de tanto ler, como fazíamos em Havana quando as mulatas não tinham outros planos.

Rousseau inspirou os jacobinos primeiro, e depois Napoleão. Mas até ele tinha que se inspirar em alguém para poder inspirar os outros. JJR se inspirou em Agostinho para escrever As Confissões. Agostinho, o santo,  confessou que roubava maçãs na mocidade, assim como nós cubanos, na velha Havana, roubávamos virgindades.

JJR confessou que era adepto fervoroso do onanismo. “A masturbação permite a nós possuir as mulheres mais belas sem que elas tomem conhecimento”, explicou o “maior amigo da humanidade”, como ele era conhecido.

Pronto. Depois de escrever sobre tanta coisa que mamãe, uma santa, não poderia ver sem me punir com sua aberta reprovação, enfim um texto iluminado por Agostinho e Jean Jacques Rousseau.

Estou orgulhoso de mim mesmo.

xxx

dedicado a Daniboy Chicote, o Danoninho das mulheres do mundo, pelo afeto com que trata um escritor barato mesmo sem gastar, como quase todos os frequentadores deste blog,  19 contos para comprar seu bestseller.

Senhorita Z: “Meu namorado era um furacão sexual. Só que era sodomita”

03/09/2010

E depois de um bocado de tempo eis que chega a minha caixa postal uma nova carta da Senhorita Z, que encantou os leitores do blog com sua paixão juvenil e proibida por um professor 20 anos mais velho e casado. Agora, ela narra seu romance com um pederasta. Pela narrativa, fiquei com dúvida. A Senhorita Z diz que seu gay queria sexo todo tempo. É uma exceção a uma regra segundo a qual maridos gays fogem do sexo heterossexual como um carioca foge do batente duro. Será que ele sentava mesmo?

Quase me casei com um sodomita, como você gosta de falar, Fabio.

Um pederasta.

Rs.
Parece frase de carta de leitora em revista feminina. Mas não é!
Está difícil escrever sobre o sexo com ele.
Vou tentar explicar o motivo:
Eu creio que há algumas maneiras de afirmar a sexualidade. Nós mulheres, quando queremos nos afirmar como mulheres sedutoras e provocantes, nos vestimos de maneira libidinosa, sem lingerie. Isso é fato: se uma mulher quer enlouquecer um homem, é sussurrar no seu ouvido “estou sem calcinha”. É instantâneo: ele fica com cara de taxo, sem reação. Um homem que está na caçada exibe os músculos, carrega peso. Parecer macho é prover. É ter liderança. É não requebrar a noite inteira. É se conter.

Mas eu acho que quem entende mesmo de “contenção” é o cara que demonstra ser homem, mas não é. Ou é e não quer ser. Ou, simplesmente, prefere não ser.

Não. Ele não parecia. Nem demonstrava. Por isso que eu digo: de contenção esses caras entendem bem. E não de novo. Eu não sabia. E quem diz que sabia, desconfiava, mas não teve como perguntar. “Mas ele nunca deu pinta”? Não. Simples assim.

O cara é bonito, assediado por mulheres, inteligente, conhece todos os restaurantes da cidade, quebra a casa quando o time dele perde. E pasme: ele é um garanhão na cama. Ai era onde estava o problema. Eu sempre pensei que por ter sido criado em uma família muito religiosa, com pais severos e irmãs puritanas, ele encontrava na cama um lugar pra extravasar a repressão sexual. Por isso ele gostasse tanto assim de trepar. Eu cheguei a pensar em desvio de comportamento sexual.

Era sexo de manhã, de tarde, de noite. Em qualquer lugar. De qualquer maneira. Ele só queria isso. “Uau, você deveria ter se sentido a mulher mais desejada do mundo”. E foi isso o que aconteceu. Ele se escondeu através da transa. Foi assim que ele me enganou. Não. Ele nunca pediu coisas estranhas, espalhafatosas, dessas que a gente ouve dizer que se “o cara pediu ele engata marcha ré”.

Sempre percebi que era uma coisa muito violenta. Hoje eu sei que essa era a maneira dele sentir raiva enquanto transava comigo. Ele expulsava a raiva de namorar uma moça com muita força na cama.

E não acredito nessa história de ser bi. Eu gosto de rosa ou azul. Não posso usar as duas cores ao mesmo tempo. Fica ridículo pra minha imagem. Vou parecer sem personalidade, sem opinião.

Na verdade ele era violento na cama. Não por gostar de sexo “movimento”. Por não querer estar ali.

Mas na verdade há o fator “garoto de programa”. Será que ele realmente não gostava de mim na cama? Ele faz isso apenas em troca de dinheiro?

Tá vendo? Essa história é mais complicada do que vc imagina…

Será que a turma do blog pode me dar conselhos sobre lidar com esse trauma?

Meu bestseller

03/09/2010

Só para saber? Alguém teve dificuldade para comprar meu livro que está aqui anunciado no blog? Editoras estrangeiras me fazem ofertas maciças para publicá-lo em línguas extravagantes e me pedem informações sobre a confiabilidade da entrega de exemplares para quem faz a compra aqui no site mesmo.

Se a caixa postal do blog implodir com o volume imenso de respostas a minha indagação, dou um endereço secreto alternativo.

Gracias!

Nós que não morremos de amor

02/09/2010

Pushkin amou, duelou e se danou

Na minha lista das coisas boas da vida os heróis relutantes do escritor inglês Graham Greene têm presença garantida. Mas meu objetivo, neste artigo, não é falar de literatura. É, sim, escrever sobre morrer de amor. Mais adiante vocês entenderão por que comecei com Greene.

E então sou obrigado a mais um de meus intermináveis parênteses. Li há tempos, numa revista inglesa, que tinha sido lançada mais uma biografia do grande poeta russo Pushkin. Pushkin, que praticamente inventou a literatura russa, morreu de amor. De amor por Natasha, sua mulher. Natasha era conhecida como a mais bela mulher de São Petersburgo. Na minha imaginação desinformada, vejo-a como uma morena de pele clara como o teclado de um piano e olhos com o brilho hipnotizador de um par de diamantes. Um imprestável e charmoso exilado francês, que vivia do dinheiro fácil de um homossexual rico, se aproximou perigosamente de Natasha. Pushkin desafiou-o para um duelo. O que torna tudo mais absurdo é que ele já ridicularizara, em sua obra, o ato de duelar. O amante de Natasha era um atirador exímio. Pushkin, ainda hoje adorado pelos russos, agonizou alguns dias antes de morrer de amor, alcançado pela bala mortífera do francês canalha. Era 1837 e ele tinha 37 anos.

O coração partido matou o grande Pushkin. A história desse gênio russo me comove, tantos anos depois e a tantos quilômetros de distância. Não existe morte mais gloriosa do que a morte por amor. E também não existe forma mais sublime e definitiva de amor do que aquele que, como o de Pushkin por Natasha, faz morrer. E acrescento o seguinte: morrer de amor não é escolha. É destino.

E então explico por que comecei minha coluna com Graham Greene. Num de seus romances, Os Comediantes, o narrador encontra num quarto de hotel o corpo pendurado do amante de sua mãe. Ele se enforcara depois de saber que sua amada morrera. Diante da visão do apaixonado suicida, o narrador reflete sobre o amor e os amantes. Li esse livro há muitos anos, mas jamais esqueci aquela reflexão. Quem me deu o romance, na minha juventude, foi meu tio Fabio, um homem sábio do interior. Hoje entendo que fazia parte não de minha educação literária, mas sentimental.

O narrador, na cena da qual eu falava, se compara ao morto no quarto de hotel. Ele próprio tinha, naqueles dias, uma história de sofrimento e decepção com a linda mulher de um embaixador. Não recordo as palavras exatas, mas tenho vívido na memória o tom amargurado da reflexão do narrador. Ele como que invejava o suicida. Sobre si próprio, dizia que o fim de um caso o arrasava por uns dias, umas semanas, uns meses talvez. Mas afinal o que parecia ser uma treva inexpugnável recebia a luz invasora, primeiro tímida, depois arrebatadora, de uma nova história de amor.

Repito. Essa reflexão tinha a sombra da inveja. É como se o narrador reconhecesse que jamais alcançaria as culminâncias do amor e, por isso, se consumisse de inveja vã pelo homem que se enforcara ali naquela quarto de hotel. Como todos nós, o narrador estava vivo, mas condenado ao amor banal, descartável como uma latinha de Coca-Cola. Vá lá, quase tão descartável.

Eu entendi o desabafo do personagem de Greene. Entendi e, de certa forma, compartilhei. Olho para trás e vejo, quase sorrindo, quantas vezes eu, desesperado, imaginei que fosse morrer de amor. Como Pushkin, por quem os russos choram até hoje. Como o amante da mãe do narrador de Os Comediantes. Mas não. Sou um sobrevivente. E me ocorre que o preço que todos nós pagamos pela sobrevivência é acumular, ao longo do trajeto, latas vazias de Coca-Cola.

Sobre a falsidade dos orgasmos

01/09/2010

Je T’Aime. Um clássico. Jane Birkin simula um orgasmo. Simulou tão bem que muita gente achou que ela tinha gravado na cama, não no estúdio. Penso em Jane Birkin, uma das mulheres mais lindas de sua era, a típica francesinha que parece ter sido feita para ser possuída, e depois penso naquela cena de Harry e Sally em que Meg Ryan, num bar, finge um orgasmo, para perplexidade de seu acompanhante e de todos ao redor. Uma cena absolutamente brilhante. Me corrigem, Jane Birkin não era francesa, mas inglesa. Há certas ocasiões em que os fatos estão errados, e esta é uma delas: Jane Birkin, mesmo inglesa, é tão francesa quanto Paris.
E me pergunto, numa tarde à toa de final de ano, qual dos gemidos falsos foi mais bem feito, o de Jane ou o de Meg?
Ah, sim, lembro também de uma passagem de Friends em que Chandler diz a Monica que simulara um orgasmo, e depois explica como, e basicamente é com a mesma estratégia feminina: alguns arquejos, barulhos, movimentos, e um falso suspiro de encerramento. Lembro que eu … bem, não lembro nada. Monica, inconformada, responde: “Vocês roubaram a única coisa que nos restava?” LOL. Eis outra cena definitivamente primorosa. Alguém fala nas provas que os homens deixam, ao contrário das mulheres, mas alguém procura por elas depois de um desempenho teatral convicente?


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 73 outros seguidores