Os homens que se dão bem


Pedro sempre se lembrava de uma frase que lera num Vargas Llosa. A cada livro novo que o personagem (inspirado no próprio Vargas Llosa, claro) trazia para casa, um outro era retirado. O mesmo com quadros. Vargas Llosa, como Pedro, era fascinado pela pintura provocadora e à frente de seu tempo de Egon Schielle. Pedro lera também num Llosa a técnica de fazer uma ficha sintética para cada livro lido. Achara uma ótima idéia, a ponto de recomendá-la a muita gente, mas jamais conseguira transformá-la num hábito. Os livros que lia e amava, bem, o que lembrava deles estava não em fichas mas em fragmentos de memórias. De Gatsby, um de seus favoritos, gostava de lembrar uma certa frase do narrador. Um grito de amor e desespero diante da queda de Jay Gatsby, adulado enquanto proporcionava as melhores festas da cidade. Gatsby conhecia o ocaso depois da opulência incensada e invejada, e ele dera uns passos rumo à escuridão depois de conversar com o narrador, com certeza inspirado no autor da história, Fitzgerald. Antes que ele desaparecesse da vista do narrador, este grita para ele: “Ei, Gatsby, você é melhor que todos os eles.”

Pedro não retirava de sua biblioteca um livro antigo a cada novo que chegava. Não tinha organização, não tinha método para isso. Mas de tempos em tempos fazia uma limpeza cultural ao fim da qual dava a quem se interessasse cem, duzentos livros. Numa dessas faxinas ele olhou para uma estante em que guardara livros de filosofia oriental. Numa fase de sua vida se encantara com a sabedoria oriental, do vedanta ao hinduísmo, do zen ao budismo. Do budismo guardara, para sempre, a essência de que a vida é sofrimento. Perdas, decepções. Impermanência. Precariedade. Como lidar com as adversidades – inevitáveis a todos os seres humanos – é a única coisa que nos distingue. Bravura na adversidade, eis a característica vital dos grandes homens e das grandes mulheres. Os melhores entre nós aceitam a vida como ela é, um “perpétuo vai-e-vém de elevações e quedas”, como escreveu Sêneca, o estóico. Pedro era fascinado pelo estoicismo, e se lembrava sempre da máxima dos estóicos: “Abstém-te e suporta”.

Na estante oriental ele encontrou um tratado sobre a arte de amor atribuído a um certo Vatsayana, um sábio indiano que se supõe ter vivido entre os séculos I e VI da era cristã. Aforismos sobre o Amor. O título original, em sânscrito, é Kama Sutra, e erroneamente muita gente pensa que é uma obra pornográfica.

Guardo ou entra na minha faxina?, pensou Pedro.

Era uma pergunta protocolar. Claro que guardaria. Pedro folheou o livro. Na página 123, viu a lista dos homens que têm sucesso com as mulheres, segundo Vatsayana. Pedro foi ponto a ponto na lista. Gostava de listas, e esta era instrutiva e divertida. Dão-se bem os seguintes homens, conforme escrito no livro:
1) os versados na ciência do amor;
2) os que têm habilidade para contar histórias;
3) os que conhecem as mulheres desde a infância;
4) os que conquistaram a confiança delas, mulheres;
5) os que lhes enviam presentes;
6) os que falam bem;
7) os que fazem coisas de que elas gostam;
8) os que nunca amaram outras mulheres;
9) os que conhecem seus pontos fracos;
10) os que gostam de festas;
11) os liberais;
12) os que são famosos por sua força;
13) os empreendedores e corajosos;
14) os que superam os demais homens em cultura, aparência, boas qualidades e generosidade.

Pedro devolveu o livro à prateleira de filososia oriental. Poucos livros são para guardar. Os Aforismos do Amor de Vatsayana, pensou ele, era um deles.

8 Respostas to “Os homens que se dão bem”

  1. nena Says:

    2, 3, 4, 6, 7, 11, 12, 13, 14.

  2. nena Says:

    2, 3, 4, 6, 7, 11, 12, 13, 14.

  3. Greice Cardosos Says:

    Pois é… quem traduziu o kama sutra de vatsayyana foi ninguém menos que Richard Burton, não o da Elizabeth Taylor, mas o antropólogo, lingüista e aventureiro, que esteve também no Brasil e percorreu o rio São Francisco… Burton era uma extraordinária figura… de certa forma esta lista é interessante e sem duvida tem valor deve ser por ai mesmo… sobre o personagem de que você fala, existe um ótimo criado pelo Vasquez Montalban que é leitor voraz, cozinheiro, e detetive. Cada livro que lê, o queima finda a leitura. Pouquíssimos livros restam desse habito estranho. Eu faço mais ou menos o mesmo. A cada ano me desfaço de um monte de livros. Desde que restem ao lado da cama, os serões, grande sertão veredas e o Julio Cesar de Shakespeare, o resto pode ser dado, queimado ou ser destinado ao oblivion. Abraços

  4. Greice Cardosos Says:

    Pois é… quem traduziu o kama sutra de vatsayyana foi ninguém menos que Richard Burton, não o da Elizabeth Taylor, mas o antropólogo, lingüista e aventureiro, que esteve também no Brasil e percorreu o rio São Francisco… Burton era uma extraordinária figura… de certa forma esta lista é interessante e sem duvida tem valor deve ser por ai mesmo… sobre o personagem de que você fala, existe um ótimo criado pelo Vasquez Montalban que é leitor voraz, cozinheiro, e detetive. Cada livro que lê, o queima finda a leitura. Pouquíssimos livros restam desse habito estranho. Eu faço mais ou menos o mesmo. A cada ano me desfaço de um monte de livros. Desde que restem ao lado da cama, os serões, grande sertão veredas e o Julio Cesar de Shakespeare, o resto pode ser dado, queimado ou ser destinado ao oblivion. Abraços

  5. Julia Says:

    É sempre bom pegar um livro desses na prateleira e relembrar que é isso mesmo que as mulheres gostam…

  6. Julia Says:

    É sempre bom pegar um livro desses na prateleira e relembrar que é isso mesmo que as mulheres gostam…

  7. Anónimo Says:

    Amei este comentário. é meu número. Amo homens, inteligentes, seguros, bem sucedidos com sigo mesmo, os que dão a impressão de que ja nasceram sabendo de tudo.

  8. Anónimo Says:

    Amei este comentário. é meu número. Amo homens, inteligentes, seguros, bem sucedidos com sigo mesmo, os que dão a impressão de que ja nasceram sabendo de tudo.

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